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LAUSANNE III | Juventude e Missão Integral - de Lausanne a Cape Town

12/9/2010 10:29:19 | Já leram (479)

Por Fabricio Cunha

Por ocasião da realização do Terceiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial, convocado pelo Comitê de Lausanne, que acontecerá na Cidade do Cabo, África do Sul, no mês de outubro, escreverei alguns artigos que dizem respeito à caminhada de construção de uma identidade evangelical internacional (no que diz respeito ao seu recorte contemporâneo), tendo como marco principal o Congresso de Lausanne, que aconteceu na Suíça, em 1974.

O tema geral será: “De Lausanne a Cape Town”.

A ideia é avaliarmos os antecedentes históricos, o próprio Congresso de Lausanne e seus desdobramentos principais, terminando com uma avaliação do “Movimento de Lausanne” na América Latina e no Brasil.

Nesse primeiro artigo da série, adoto como marco principal dos antecedentes históricos mais distantes e mais imediatos, o Congresso do Panamá, ocorrido no ano de 1916, que deflagrou o processo de construção de uma identidade missional na América Latina.

CONGRESSO DO PANAMÁ E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O LANÇAMENTO DAS BASES DA IDENTIDADE EVANGELICAL LATINO AMERICANA

ANTECEDENTES HISTÓRICOS

1. A mudança de paradigma a partir do Iluminismo
Faz-se necessário retroceder ao período iluminista por conta da significativa mudança de paradigma na estrutura missionária, que, diretamente, lança as bases para o que chamamos de “missões modernas”. Portanto, alguns dados são fundamentais para a compreensão da mudança de eixo no modus operandi missionário da época.

a. O rompimento com a hegemonia clerical
A partir do novo eixo central da sociedade da época, que passa de teocêntrica para antropocêntrica, a igreja vai, gradativamente, perdendo seu lugar central na sociedade, que vai estabelecendo seus caminhos e descaminhos, cada vez mais independente da ingerência clerical. Os padres, bispos e até mesmo o papa, perdem seu lugar central na influência da vida cotidiana do povo, em todas as esferas, como o era até então, gerando a emancipação de outros protagonistas, os leigos protestantes, os comerciantes, os líderes sociais, e mesmo os governantes. Tais categorias veem-se livres para novas alternativas de atuação, em todas as áreas da vida pública e privada, isto é, o homem se vê livre para atuar como “capitão” de sua própria história.

b. O rompimento com a esfera mística
Mesmo numa sociedade ainda muito permeada pelo religioso e pelo sagrado, o concreto, a partir da ciência e da filosofia, vai tomando o lugar central do pensamento corrente. O místico, que servia como instrumento de manipulação, vai-se diluindo face às novas realidades de pensamento. O homem, sem a tensão da opressão pelo sagrado, vê-se livre para pensar suas dinâmicas de vida de forma independente, não mais tutorado pelo transcendente que, no caso, era representado pela igreja.

c. O rompimento com a “escuridão intelectual” – racionalismo
Com a nova estrutura de pensamento, onde o conhecimento passa a se basear na experiência e os tratados são frutos do livre pensamento, ao homem é devolvida a possibilidade do pensar, do descobrir, do aferir por si próprio. Nada é verdade por imposição ou convenção, tudo precisa ser provado empírica e pessoalmente. As ciências se emancipam e a teologia, considerada até então a única ciência ou, na melhor das hipóteses, a mãe das ciências, é colocada sub judice, por conta de seu subjetivismo.

d. A necessidade dos descobrimentos
Dois são os motivos principais para esse momento: a perda da hegemonia católica, que gera um grande déficit financeiro à Santa Sé que, por sua vez, subsidia tal empreitada com o intuito de conseguir mais recursos; e o grande crescimento do comércio europeu, criando um novo estrato social, o dos burgueses que, por sua vez, precisam de matéria-prima em maior quantidade a um preço menor, para aumentar sua escala de lucro e veem no descobrimento de novas terras uma grande oportunidade de conseguir o que pretendiam.

Portanto, numa sociedade que é devolvida ao protagonismo laico, que se vê livre da opressão do místico, com a possibilidade de pensar livremente, de se lançar a novas possibilidades e descobrir novos horizontes, vê-se alterado o paradigma de missão que foi hegemônico na idade média — o da expansão imposta e controlada pela Igreja Católica Romana, com lampejos de ascendência social natural por conta do Protestantismo.

Com a separação entre Igreja e Estado na Inglaterra, seguida imediatamente pela França e depois por outros países da Europa, as novas sociedades religiosas veem-se com a necessidade de reconfigurarem sua atuação na sociedade. Os clérigos de carreira perdem sua ascendência natural sobre o povo e sobressaem pensadores livres que, por conta de um discurso mais acessível, encarnado e palpável, ganham influência e força pública, gerando alguns movimentos.
Por força dessas mudanças, dois pontos principais se tornam o centro do paradigma de missão:

PARADIGMA DE MISSÃO PÓS-ILUMINISTA

   CATEQUÉTICO EVANGELÍSTICO 
 Geografia  Seguia as rotas dos descobrimentos  Tinha seus próprios alvos
 Objetivo  Aumentar os membros da igreja-mãe  Fazer discípulos de Jesus Cristo
 Método  A imposição da religião cristã, católico-romana, aos colonos  

O discipulado e o convite pessoal

 Resultado Imediato  Cristianização das Colônias Ibéricas  Avivamentos na Inglaterra e EUA; Postos missionários no NO da África, África do Sul e China
 Espírito  Expansionista Agregador  

Expansionista Transformador

2. Os Movimentos de Renovação
Com a convergência dos fatores acima, alguns movimentos tomam proporção e organização e geram uma definitiva mudança de paradigma na estrutura missionária, o que nos influencia até hoje.

a. O Grande Despertar
Uma série de avivamentos ocorridos nas colônias americanas que teve dois momentos: o primeiro, no início do século dezoito; e o segundo, do final do século dezoito até meados do século dezenove. Uma das figuras principais desse momento é Jonathan Edwards. Niebuhr [1] chama esse momento de “nossa grande conversão nacional”. O pensamento de Edwards conseguiu represar o racionalismo intelectual, romper com o engessamento puritano e dinamizar a atuação da igreja da época, projetando-a para a missão e nutrindo-a com reflexão. Conforme Niebuhr [2], Edwards conseguiu combinar em sua pregação a necessidade da experiência espiritual pessoal e a densidade do estudo das Escrituras.
O primeiro despertar não deu origem direta às atividades missionárias, mas lançou as bases para seus fundamentos.

b. O Metodismo
Protagonizado pelos irmãos John e Charles Wesley, o movimento do século dezoito também lança bases para a reflexão missionária, principalmente pelo caráter universal de salvação no pensamento de Wesley. Daí sua célebre afirmação: “O mundo é minha paróquia”. Embora tenha influenciado diretamente os índices sociais de sua Inglaterra contemporânea, a gênese de sua pregação era a salvação de almas, de onde então derivaria a mudança social.

c. O avivamento evangelical no Anglicanismo
O Metodismo influenciou profundamente a ala evangelical da Igreja Anglicana, que teve como ponto principal nesse cenário uma renovação na estrutura de liturgia e a inclusão da discussão da missão, na tentativa de repensar sua atitude latitudinal que os estava levando a uma “camisa-de-força” dentro de sua própria instituição. Grande parte dessa renovação na Inglaterra também se estendeu a igrejas não-estabelecidas.

d. O Segundo Despertar
Após os movimentos supracitados, as igrejas — principalmente presbiterianas, batistas e metodistas — começaram a crescer de forma substancial na transição do século dezoito para o dezenove. Isso se deu através do movimento chamado Segundo Despertar. Diferentemente do primeiro, ele não representou uma ruptura com algo estabelecido ou um recomeço na dinâmica de vida a partir de uma convocatória evangélica mas, antes, potencializou o que havia acontecido no Primeiro Despertar, tendo-o como referência, aprendendo com seus fracassos, consolidando seus ganhos e canalizando seu potencial numa grande diversidade de ministérios e, principalmente, no caráter missionário em nível interno e externo ao ponto de, em meados do século dezenove, a causa missionária alcançar o status de “grande paixão das igrejas americanas”[3].

e. O protagonismo individual
De todas as contribuições desses momentos, talvez a maior delas tenha a ver com o surgimento das sociedades dedicadas exclusivamente às missões no exterior, as famosas “Sociedades Missionárias”. Seu quadro era formado principalmente por voluntários que, tocados pelo despertar, não estavam dispostos a esperar pela atuação burocrática das igrejas oficiais. Era natural a criação de grupos de cooperação missionária que tinham como membros pessoas comuns de várias igrejas diferentes. Elegeram William Carey como seu paradigma de missão, o arquiteto da missão moderna, sendo que ele foi o primeiro missionário de uma missão totalmente independente, a Sociedade Batista Particular para a Proclamação do Evangelho entre os Gentios. Ele foi a Serampore, na Índia, em 1793 com uma estrutura praticamente não-institucional. Que isso não nos confunda levando-nos a pensar que tais homens estavam isolados de suas estruturas eclesiásticas. Estavam dispostos a alçar voos próprios vendo a urgência de sua atuação, mas não estavam à parte de suas instituições.

Notas
________________________________________
[1] NIEBUHR, H. Richard. 1959. The Kingdom of God in America. Pág. 126
[2] IDEM. Pág. 109
[3] CHANEY, Charles L. 1976. The Birth of Missions in America. Pág.: 174

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Fabricio Cunha Fabricio Cunha No fundo e no final das contas, sou só um caipira. Só um caipira, filho do seu Dito, dono de uma viola e amante de festa junina.
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