Vodu Haiti, Vodu Ocidente
17/1/2010 01:11:31
Falemos, então, de demônios. Os espanhóis cristãos chegaram ao final do século XV à América, descobrindo-a para suas ambições. Produziu-se uma matança sangrenta por parte das hostes de Cristóvão Colombo contra a população indígena que vivia na ilha onde hoje se encontra a República Dominicana e o Haiti. Já em 1540, a população indígena havia quase desaparecido. Enfermidades trazidas pelos europeus, o regime de escravidão ao qual foi submetida, as matanças e a escassez de alimento, tudo provocado por homens que beijavam a cruz de Cristo, causaram este genocídio
Anos depois, em 1697, os franceses cristãos expulsaram os espanhóis da metade da ilha e o Haiti foi a porta de entrada de milhares de escravos provenientes da África. Os escravos que iam chegando morriam aos milhares, e eram substituídos por outros. Era um país de jovens recém-chegados. A França da revolução das liberdades individuais tinha outra forma de ver o mundo no Haiti, cuja cana-de-açúcar abastecia as mesas européias com este produto. A independência dos haitianos foi um processo sangrento, sem rastros de humanidade e quase surrealista. Do próprio lado dos dirigentes haitianos se multiplicaram ditadores que afundaram mais ainda o país.
Mas o Haiti poderia ter decolado; não havia razão para estar condenado à pobreza extrema. Certamente a má liderança nativa foi uma das causas, mas foi também a França cristã que, com um descaramento mais descomunal que seus monumentos parisienses, pediu uma indenização por haver saqueado, escravizado, brutalizado essa pequena nação. A dívida paga em 50 anos, com outras dívidas assumidas, foi um peso demasiado para eles; a crise estava por todo lado.
Aqui entra, então, em cena os banqueiros (cristãos?) de Nova Iorque que possuíam a maioria do crédito haitiano e não queriam perder essas dívidas. Era o ano de 1915 e o presidente Wilson enviou a Marinha ao Haiti, tomando o controle do país. Eles praticamente governaram o Haiti por 20 anos. A América do Norte cristã restabeleceu as levas de jovens para trabalho forçado, elitizou mais o país, e pouco fez para atender aos pobres. Mas os demônios não têm nacionalidade. Então, em 1957, François Duvalier, um dos mais nefastos personagens que já governou qualquer país neste continente, aterrorizou o Haiti usando uma mescla insana de religião e política, o vodu e o poder. E tudo com a benção do governo norte-americano. Duvalier, chamado Papa Doc, deixou o poder e foi sucedido por seu filho adolescente Jean-Claude, apelidado Baby Doc, que foi assessorado economicamente pelo FMI com o consentimento de muitas empresas transnacionais estabelecidas no Haiti. Até que em 1986 essa ditadura caiu. Realizaram-se eleições democráticas sob a supervisão internacional.
O resto é história mais recente, com Jean-Bertrand Aristide na presidência, sua destituição e sua reposição ao poder. Sua proximidade de Cuba e suas tímidas reformas não agradaram aos Estados Unidos. Mas ele tampouco fez muito: se envolveu num conflito político sangrento com seus opositores. Ele afirma hoje que seu caso não foi uma renúncia mas uma deposição por pressão política do país do Norte. Vieram as ondas de crise: bancária, fraudes eleitorais, corrupção crescente, um Estado quase inexistente, uma população de 9 milhões em apenas 27 mil metros quadrados de país. Pobreza por todos os lados, desarticulação social, um país quase invisível. Vários amigos de agências de cooperação para o desenvolvimento relatam que as ONGs devem fazer aquilo que o Estado deveria realizar. Não poucas destas agências têm sedes permanentes neste país. O terremoto é mais uma marca – grossa e dolorosa, certamente – no tecido social devastado do Haiti.
Haiti é exemplo de como políticos de carne e osso mas também nações podem se parecer tanto com demônios; ou como dizia o pregador Charles Spurgeon, ensinar aos demônios o que é e como a maldade atua. Haiti não merece esta forma de vida, nem merece os milhares de mortos nas ruas, em sua história. Seremos capazes, os cristãos, de fazer algo mais do que exorcizar os demônios dos outros – e nem sequer os próprios? Seremos capazes de levar a sério a solidariedade global, deixando os preconceitos de raça, religião, nação? Haiti não necessita caridade, necessita justiça. Parte dela, obviamente, é levantar-nos para apoiá-los no meio da tragédia do desastre natural ocorrido. Mas será mais depois quando os refletores das câmeras se apagarem e o Haiti não for mais notícia. Deus nos ajude a sermos conseqüentes.
(Tradução de Flávio Conrado)

3 Comentário(s)
17/1/2010 20:23:20 Orlando Esteves Parabéns pelo artigo. A cristandade tem, ao longo da história, manchado a verdadeira intenção do cristianismo. Talvez seja a altura desta geração de cristãos repôr o bom nome de Cristo com actos e com o amor de Jesus. Uma correcção: a data da ocupação francesa é de 1697 e não 1967. Melhores cumprimentos Orlando Esteves
18/1/2010 11:35:29 Eugênio Ribeiro Excelente Post. Os Cristãos cometeram uma injustiça social para com este e outros povos do orbe. Um Sacerdote francês, Leon Dehon, certa vez escreveu que injustiça social também não deixa de ser um pecado. Nós Cristãos o máximo que podemos e devemos fazer agora é reparar este pecado social. http://www.reverendoeugenio.blogspot.com/
18/1/2010 14:40:43 Sarah Catarino Haveria tanto de que nos arrepender, quando olhamos para trás e vemos o que foi e o que não foi feito em nome da fé cristã. Os mesmos interesses egoistas que vemos hoje à nossa volta, já existiam nessas datas remotas. O que precisamos é converter o nosso coração e de uma vez por todoas viver não um "ismo" qualquer, mas viver Cristo.