Frente a frente com o paradoxo
15/2/2010 15:22:21
“A má sorte, cedo ou tarde, atinge a todos nós” (Ec 9.11 – The Message*)
Não fomos ensinados a sermos amigos das contradições e paradoxos. Paradoxo diz respeito àquilo que é contrário à opinião comum (doxa); que contra-diz, que apresenta um desequilíbrio e denota algum tipo de inconstância. Na nossa vida em rebanho (como diria Nietzsche), somos tentados a seguir a “doxa”, ao pensamento da maioria, à tirania do normal, do bom e do belo; a declarar – quase como um mantra – que a vida é bela, a despeito dela não ser.
Todavia, como o pregador (questionador), há aqueles que pararam para pensar na realidade tal como ela é, e viram na beleza da vida alguns traços de feiúra, rastros do pecado que habita no coração do ser humano (cf. Ec 7.29). E como nós, cristãos, lidamos com desequilíbrios e paradoxos nos quais temos parte? Para exemplificar o modo como vejo esse enfrentamento (ou não), usarei uma tríade: Negação – Combate – Saídas Baratas.
Negar parece ser sempre a primeira e instintiva reação – até certo ponto, normal – do ser humano diante dos paradoxos. Não queremos encará-los, reconhecer que eles existem, dar a eles uma atençãozinha sequer. Porém, com o caminhar, os mais lúcidos – os que mais sofrem – se dão conta de que abraçar a vida sem aceitar os paradoxos que lhe são inerentes é o mesmo que querer segurar uma rosa sem tocar nos espinhos.
Circunstancialmente, portanto, criamos modos de combate ao paradoxo, sendo a própria negação um deles, como primeiro passo. Queremos a todo custo a “paz perpétua”, a resolução do conflito, resgatar quem sabe o marasmo de antes, tão melhor que a angústia de agora. Contudo, nem o mais fervoroso dos cristãos está livre dela. A angústia talvez não seja assim um “bicho-papão”. Ela pode ser o combustível que nos move na direção contrária a do abismo, direto para os braços do Pai, que nos recebe amorosamente.
Entretanto, invariavelmente, a gente se depara com o que chamo de “saídas baratas”, que são as fórmulas fáceis do cotidiano provenientes de um emaranhado de propostas de auto-ajuda e que arrebanham milhares com promessas de uma vida mais fácil, leve, próspera e feliz. Ser cristão, nessa perspectiva, é seguir corretamente os passos indicados, o que significa “boa sorte” sempre e não tem como ser diferente, tem? Tem sim, diria o Eclesiastes.
A “má sorte”, conforme mostra a tradução indicada no início, “cedo ou tarde, atinge a todos nós”. Tudo o que respira está sujeito às intempéries do tempo e do acaso. Eis que então nos vemos diante do desequilíbrio e do paradoxo: aquilo que era pra ser não é, e aquilo que é, não era pra ser (ver Ec 9.11). O tempo da calamidade cai de repente sobre nós, cedo ou tarde (Ec 9.12). A questão, de novo, é: como lidamos com essas situações? Como enfrentamos o paradoxo?
Nas situações paradoxais, muitas vezes entramos em litígio (conflito, controvérsia) com Deus; supomos que Ele tem de intervir positivamente nas situações. E se Ele não fez, então permitiu. E se permitiu, por quê? Não vejo um grande mal no litígio com Deus. Jó, Davi, Jeremias, Jesus e tantos outros entraram no litígio e nem por isso naufragaram na fé. O exemplo deles me ensina que estar com Deus não me isenta das contingências, mas me ajuda a passar por elas com outra perspectiva – a da fé.
A vida na fé – não a infantil, mas a que ruma para a maturidade –, ao contrário do que muitos pensam, é opção por situações e posturas contraditórias, do ponto de vista humano. É uma vida aberta às possibilidades e ao paradoxo. A fé é a certeza que nos leva à luta, apesar das incertezas e em meio a contradições, imprevistos e situações infelizes. Na vida humana, o paradoxo existe, é um dado, não pode ser extraído e nem explicado; é para ser assumido.
Termino citando Sören Kierkegaard, um amante dos paradoxos:
Não é necessário pensar mal do paradoxo, pois o paradoxo é a paixão do pensamento, e o pensador sem um paradoxo é como o amante sem paixão, um tipo medíocre. Mas a potência mais alta de qualquer paixão é sempre querer a sua própria ruína, e assim também a mais alta paixão da inteligência consiste em querer o choque, não obstante o choque, de uma ou de outra maneira, tenha de tornar-se a sua ruína. Assim, o maior paradoxo do pensamento é querer descobrir algo que ele próprio não possa pensar. (1)
* Eugene Peterson, The Message, NavPress, 2002. Acesse a versão online aqui: http://www.biblegateway.com/versions/Message-MSG-Bible/ . Tradução do trecho pelo autor do artigo.
(1) KIERKEGAARD, Sören. Migalhas filosóficas ou um bocadinho de filosofia de João Clímacus. 2ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 61-62

1 Comentário(s)
26/8/2010 16:57:03 Petruska Perrut Foi um bálsamo encontrar este texto no meio do caminho. Pedras como esta edificam.