8/8/2010 01:25:55 Comentários (0)
Dia dos pais: mais afetividade (e menos materialidade)
Lembramos neste segundo domingo de agosto, conforme o calendário brasileiro, o chamado “dia dos pais”, que é comemorado desde o ano de 1953. Outros países, dentre os que celebram, o fazem em datas diferentes. Segundo a tradição, a comemoração surgiu nos Estados Unidos em1910; completa, portanto, um século em 2010.
Certamente é bom ter um dia especial para reconhecer e festejar os pais. A data, porém, – assim como outras assemelhadas – foi adotada espertamente pelo comércio, visando sempre aumentar suas vendas e auferir maiores lucros. Por isso mesmo, investe em propaganda para seduzir as pessoas ao consumo, sugerindo que homenagear é dar presentes materiais.
Mas será mesmo isso que os pais desejam no chamado dia dos pais? Não fiz uma pesquisa mas, em conversas que as vezes tenho com pais (e mães), seus desejos em relação aos filhos estão numa dimensão bem diferente...
É bom dar presentes, até porque tal prática está geralmente associada a uma demonstração simbólica de afeto. E, às vezes, a pessoa está até precisando daquilo que ganhou. Mas desconfio que muitas vezes os presentes dados além de serem supérfluos, ainda podem gerar o oposto do desejado. Ou seja, causam mais chateação que alegria.
É comum quem presenteou indagar: “E aí, gostou mesmo?” E a resposta, educada, deve corresponder à expectativa da pergunta. E quando o homenageado enfatiza: “Sim, gostei muito!”, isso quer dizer, muitas vezes, que ele não gostou nada. Comportamento típico dos seres humanos...
Para não correr este risco, para não submeter-se aos caprichos desse terrível padrasto que é o consumismo, para não ficar refém de dívidas que depois causam aborrecimentos, sugiro uma moratória, digo, uma pausa prolongada, em dar presentes materiais. E proponho que se presenteie de maneira mais criativa, com algo que pode agradar e realizar muito mais os pais. Como reconhecer e verbalizar, ou mesmo escrever, com sinceridade e beleza sobre o cuidado, a proteção, a provisão, o amor efetivo dele por você. Abra o coração e se expresse sem economia... Palavras bem ditas, além de abençoadoras, podem trazer alegria e bem estar inigualáveis. E geram verdadeiramente mais contentamento e felicidade que dádivas materiais. E de maneira recíproca, ou seja, tanto para ele quanto para você.
É fato que mais fácil é comprar um presente que abrir o coração e falar generosamente para o outro, no caso o pai. Manifestar sentimentos é mesmo algo difícil, até porque somos educados mais a nos fechar e retrair. Amadurecer, portanto, significa muitas vezes esconder nossos sentimentos infantis mais puros e belos. Uma pena....
Outra sugestão é fazer um passeio a um local que seu pai goste muito e/ou visitar pessoas que são queridas por ele. Isso pode trazer muitas e boas lembranças, o que é sempre saudável. E bom seria que o(s) filho(s) pudesse(m) participar com real interesse e dedicação dessas aventuras, afinal, não basta ser filho, é preciso participar. Demonstrar verdadeiro interesse pelas coisas valorizadas por seu pai produzirá, certamente muita alegria para todos.
Mais uma sugestão: Você pode optar por mudar algo em sua vida que não é bom e que sabe que tal coisa entristece seu pai. Talvez abandonar uma prática ou comportamento prejudicial tanto para você próprio como no relacionamento com outra pessoa. Quem sabe você pode também decidir ser mais atencioso, respeitoso, presente e amoroso com seu pai e a família.
Em suma, sugiro maior exercício de afetividade (e menos materialidade). Como ainda fazer uma refeição juntos, com saudável diálogo, além de ser mais generoso nos abraços, nos elogios, no carinho, nos beijos. Jamais se deve economizar demonstrações de afeto e amor. Até porque – é bom frisar –nenhum ser humano é eterno.
Certamente que presentes assim encherão e transbordarão seu pai de grandes alegrias. Que podem levá-lo às lágrimas de felicidade.
Se por acaso você não tem mais fisicamente seu pai, agradeça ao Pai pelo pai que você teve e recorde, com gratidão, os bons momentos com ele. Isso glorifica a Deus e alegrará muitíssimo a você.
Parabéns, pais! Parabéns, filhos!
Por Clemir Fernandes
8/7/2010 15:37:08 Comentários (0)
Infância: desafio para as igrejas
Num post anterior ["2010, muito para repensar"], comentava que 2010 era um ano com excelentes oportunidades de reflexão e construção de novos caminhos de presença e missão cristã no Brasil e na América Latina, especialmente para evangélicos de todos os matizes. É que a tragédia do Haiti (a que se seguiram a do Chile e a de Alagoas, entre outras), a Conferência de Edimburgo 2010 e a de Lausanne 3, na África do Sul, eram, no meu entender, preciosos momentos para aferição de nossa teologia, de nossa espiritualidade e de nossa prática missionária.
A CEPAL e a UNICEF acabam de nos fornecer outra boa razão para avaliarmos que tipo de cristianismo e que tipo de igreja evangélica estamos construindo no Brasil e na América Latina. Eles estão finalizando uma pesquisa importante sobre a pobreza infantil na América Latina cujo título é provocador, especialmente para os cristãos: A Pobreza Infantil: um Desafio Prioritário. Digo provocador porque foi o próprio Jesus que colocou a espiritualidade da criança como modelo para o Reino de Deus, dando a entender que ela deve estar no centro das nossas atenções como comunidades de fé, de amor e de esperança para sociedades e culturas deficitárias de justiça, de igualdade e de solidariedade.
O relatório ainda está sendo finalizado mas alguns dados, já divulgados, impressionam e escandalizam:
– 80 milhões de crianças latino-americanas vivem na pobreza e 32 milhões na pobreza extrema, esses números correspondendo a 45% (quase a metade!) e 17,9% dessa população.
– No Brasil, quase 23 milhões de crianças vivem na pobreza (38,8%!) e 8,5 milhões na pobreza extrema (14,6%).
Essas informações provocam muitas interrogações e muitas das respostas nós já sabemos. A privação (falta de condições e serviços indispensáveis ao desenvolvimento), a exclusão social (processos nos quais a dignidade, a voz e os direitos lhes são negados ou ameaçados) e a vulnerabilidade (ineficácia no controle de ameaças existentes) resultam da inexistência ou inadequação das políticas públicas, governos corruptos, ausência de sistemas de prestação de contas, avaliação e monitoramento do investimento em políticas sociais, sociedade civil enfraquecida, etc.
Qual a solução para isso? PRIORIDADE ABSOLUTA PARA A INFÂNCIA E A ADOLESCÊNCIA!
Quando reclamamos prioridade absoluta para a infância e adolescência, lembro do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que estará completando em poucos dias (13 de julho de 2010) 20 anos de existência no Brasil e oferece outra boa razão para os evangélicos brasileiros refletirem e avaliarem. O ECA supera de longe antigas legislações sobre a criança e o adolescente no Brasil, está em total consonância com a Convenção Internacional dos Direitos da Criança (promulgada em 1989), e significa um marco na garantia de direitos para a população brasileira no Brasil redemocratizado. Vamos bem, portanto, de legislação e de concepção democrática de promoção e garantia de direitos às crianças e aos adolescentes.
Obviamente, na prática é outra história. Estamos devendo muito ainda em termos de respeito aos direitos da infância e os dados do relatório da CEPAL/UNICEF demonstram escandalosamente isso. O Brasil e os outros países da América Latina precisam de um grande mutirão que una sociedade organizada, governos e famílias para erradicar a pobreza infantil e com ela a tristeza e a dor de milhões de crianças e adolescentes.
As igrejas evangélicas necessitam fazer o dever de casa. Em parte já estão fazendo. Na América Latina e no Brasil. Dou exemplos:
– Temos organizações evangélicas a nível regional como Visão Mundial, Compassion, Tearfund e Red Viva que estão fazendo um trabalho reconhecido, liderando todo um movimento de igrejas e organizações em prol da infância e adolescência conhecido como Movimento Juntos por la Niñez;
– Exemplo de engajamento concreto é a Campanha Latino-Americana “Bons Tratos para a Infância”, promovido pelo Movimento Juntos por la Niñez na região e pela Rede Mãos Dadas no Brasil. Os objetivos da campanha são “fortalecer uma cultura de bons tratos, contribuindo para a prevenção e o combate à violência contra crianças e adolescentes” e “desafiar a igreja a uma mudança de pensamento e atitude no que diz respeito à infância no continente latino-americano, caracterizado historicamente pela violência contra as crianças”.
– No Brasil, a Rede Mãos Dadas edita desde 2000 uma revista de mesmo nome para aqueles que trabalham com crianças e adolescentes em situação de risco e reúne mais de 30 organizações que se dedicam à proteção e ao desenvolvimento infantil.
– A Rede Mãos Dadas promove desde 2003 o Mutirão de Oração Por Crianças e Adolescentes em Situação de Risco que já está em sua 15ª. edição no mundo e em 2009 envolveu quase 60 mil pessoas de 428 organizações e igrejas, em 21 estados do Brasil.
– Desde 2002, um grupo de teólogos de diferentes partes do mundo desenvolve uma Teologia da Criança, criando o Movimento de Teologia da Criança. Em 2006, foi realizada a primeira consulta sobre esse tema no Brasil. Os resultados da consulta estão publicados no livro Uma Criança os Guiará, organizados por Welinton Pereira, Klênia Fassoni e Lissânder Dias e editado pela Editora Ultimato.
Estes exemplos comprovam que estamos nos mexendo. Estamos nos organizando, orando, revisando nossa teologia, nos qualificando e fazendo campanhas para dentro de nossas igrejas. É preciso fazer ainda mais.
É preciso denunciar em alta e clara voz profética que as crianças e adolescentes desse país precisam de atenção prioritária e não estão recebendo. É preciso acompanhar os orçamentos do Governo Federal, dos governos estaduais e dos municípios brasileiros para ver se estamos cumprindo obrigações legislativas e promessas de campanha. É preciso monitorar os indicadores sociais que são divulgados por agências internacionais e governamentais, centros de pesquisa e universidades sobre a situação da infância e adolescência em todos os níveis: federal, estadual e municipal. É preciso mobilizar as milhares de igrejas evangélicas para acompanhar pais e crianças num grande mutirão de cidadania, de exigibilidade de direitos, de manifestação pacífica por direitos negados. É preciso se unir a movimentos sociais e a ONGs do país na luta pelos direitos das crianças e adolescentes, para depois celebrar com eles e com as próprias crianças e adolescentes as vitórias alcançadas. É preciso, finalmente, promover e dar voz e vez às crianças e adolescentes nas nossas igrejas, nas escolas, nos centros de cidadania, nas campanhas, etc, respeitando-os como sujeito e não mais como objeto.
Que a igreja evangélica no Brasil e na América Latina aceite o convite de Jesus para colocar a criança no centro de nossas atenções!
Por Flávio Conrado
Movimento Juntos por la Niñez - http://www.juntosporlaninez.com/
Campanha Latino-Americana “Bons Tratos para a Infância” - http://maosdadas.org/rede/bons-tratos/
Rede Mãos Dadas - http://www.maosdadas.org/
Mutirão de Oração por Crianças e Adolescentes em Situação de Risco - http://maosdadas.org/rede/mmo/
Livro Uma Criança os Guiará - http://ultimato.com.br/blogs/crianca/; http://www.childtheology.org/
Imagem: Ricardo Peixoto, 1996.
30/4/2010 04:14:04 Comentários (0)
Qual protestantismo para qual democracia?
25 anos atrás o Brasil reiniciava sua trajetória democrática depois de 21 anos de Ditadura Militar. Em 1985, uma série de eventos marcaria o início do período que se convencionou chamar de Nova República. Foi uma grande conquista do povo brasileiro que resistiu e lutou para que a democracia fosse restabelecida. O símbolo mais poderoso dessa retomada democrática foi a promulgação da Constituição em 1988, a chamada Constituição Cidadã. Em 2008, quando se comemorava seus 20 anos, a revista Democracia Viva (no 40), do IBASE, debateu a importância desse documento para a cidadania brasileira. O fio que perpassa os textos é a dissecação da dicotomia Brasil Legal X Brasil Real. Se, por um lado, há o reconhecimento de que a Constituição de 1988 reúne de modo avançado direitos civis, políticos e sociais; por outro lado, denuncia-se o seu assalto (pelas diferentes emendas que vem sofrendo pelas elites dominantes) e aponta-se suas ambiguidades e ambivalencias. Reinvindica-se, assim, sua radicalização, sua conclusão; apela-se para as marcas e a sombra que nela foram deixadas pela intensa mobilização e participação popular organizada, como se pode ver em mecanismos e institutos como a lei de iniciativa popular, a função social da propriedade, o artigo 6o (aquele que garante os direitos sociais universais).
Segundo Juarez Guimarães, professor de Ciência Política da UFMG, estaríamos vivendo um segundo grande ascenso no processo de autoformação do povo brasileiro, traduzido no esforço participativo e organização da sociedade em torno de um projeto de construção da nação. O primeiro teria começado nos anos 1950 e foi abruptamente interrompido no golpe militar de 1964. O segundo corresponderia ao período iniciado na segunda metade da década de 1970 (com as lutas pela redemocratização) e continuaria até os nossos dias.
O tema que vinculava os movimentos sociais no primeiro período era o tema nacional: os interesses da soberania nacional em relação aos interesses externos. E devemos a esse ciclo as primeiras campanhas nacionais como a da Reforma Agrária, liderada pelas Ligas Camponesas; e a formação da primeira central sindical, a CGT. O movimento estudantil e sua tradição contestatória adquirem importância também nesse contexto com a UNE. São elaborados os primeiros projetos de urbanização de favelas em Recife, e Paulo Freire ensaia seu trabalho de educação popular. A construção de Brasília e a Petrobrás surgem nesse período como símbolos nacionais, e projetos culturais amplos como o Cinema Novo e a Bossa Nova também emergem juntamente com uma nova geração de poetas que vão alargar a imaginação criadora e expandir o patrimônio cultural do país.
Em meados da década de 1970, ressurgem os movimentos sociais e democratizadores num novo ascenso no processo de autoformação do povo brasileiro cuja gramática é a da cidadania ativa. Forma-se o MST, herdeiro das Ligas Camponesas. Surge o novo sindicalismo com a CUT. A Teologia da Libertação aparece nesse momento. A agenda dos movimentos sociais incorpora o ecologismo, a expansão da identidade feminina e a luta pelos direitos dos homossexuais. As experiências inovadoras do orçamento participativo e uma nova agenda internacional emancipatória é expressada no Fórum Social Mundial (nascido em Porto Alegre, por iniciativa de lideranças da sociedade civil brasileira) e na proposta de integração latino-americana. Quatro momentos institucionais marcam esse novo período: a Campanha pelas Diretas, a Constituinte, o Movimento pela Ética na Política (seguido do Impeachment do presidente Collor) e a primeira eleição do Lula.
Que tradições, se pergunta Juarez Guimarães, animam esse segundo ascenso do processo de autoformaçao do povo brasileiro que é essencialmente um esforço participativo democrático? Seriam cinco, segundo ele: i) A primeira tradição seria a do cristianismo popular, da qual a Teologia da Libertação representa sua expressão mais acabada, contribuindo para a organização nas bases; ii) A segunda seria o nacional-desenvolvimentismo democrático que traz a questão do desenvolvimento do Nordeste e a idéia de nacionalidade compondo uma unidade entre democracia, justiça social e soberania; iii) A terceira é a do socialismo democrático que é forjada na luta contra a ditadura e na reelaboração das tradições européias e busca a democratização radical; iv) A quarta é a do liberalismo social, republicana, que incorpora também os direitos sociais na sua juridificação (a criminalização do racismo, da violência contra as mulheres, etc); v) E a quinta tradição, a mais larga, é a cultura popular brasileira que organiza dois exercícios permanentes: recriação da identidade brasileira e desfazimento da separação entre elite e massa redefinindo-a como popular/erudito.
Dentro dessa perspectiva que Juarez Guimarães nos apresenta, onde encontramos a contribuição dos evangélicos? A realidade dura a encarar é que ainda somos devedores desse movimento de construção da cidadania ativa e participativa no Brasil, com algumas e louváveis exceções que temos a tarefa de resgatar, destacar, valorizar, imitar [tarega à qual temos nos dedicado na revista]. Ao contrário dos católicos que deram origem a um amplo movimento de conscientização popular e formação de lideranças sociais e políticas através das Comunidades Eclesiais de Base e das Pastorais Sociais, os evangélicos se tornaram mais conhecidos pelos seus parlamentares pentecostais afeitos ao corporativismo e clientelismo político, no evangelho do “irmão vota em irmão”. Ainda causa surpresa em defensores de Direitos Humanos e ativistas sociais saber que existem evangélicos comprometidos com a radicalização da democracia e a defesa de direitos espalhados em organizações, redes, movimentos sociais, nas diferentes expressões da sociedade civil organizada.
A estarem corretos recentes levantamentos estatísticos, como o do Datafolha (março 2010) que apontam 25% de evangélicos no Brasil, há de se esperar uma outra relação com o processo de autoformação do povo brasileiro. Não podemos mais nos desculpar com o argumento irresponsável e não-convincente de que nossa tarefa é "espiritual", de que evangelizando a nação (leia-se: produzindo conversões em massa) estamos dando nossa contribuição à sua construção, livrando-a de seus vícios e maldições. Não!
O desafio atual para esse protestantismo é tornar-se consciente de seu caráter emancipador (a história o demonstra!) e criar condições para que as novas demandas de democratização e adensamento da participação cidadã encontrem espaço e sejam agenciados no seu conjunto de igrejas, agências missionárias, movimentos, redes, fóruns, organizações, entidades, etc. Precisamos de uma espiritualidade democrática e republicana. Talvez esteja na hora de reconstruir um novo consenso que ultrapasse diferenças teológicas e eclesiológicas em novos espaços capazes de mobilizar a força moral e social dos evangélicos brasileiros na direção de um país onde justiça e paz se beijem. Quem sabe assim sejamos contados daqui a 20 anos entre as tradições que animaram o esforço participativo democrático e republicano? Eu tenho esperança!
31/3/2010 16:18:14 Comentários (0)
Páscoa: Reflexão e gratidão
Desde a saída vitoriosa dos hebreus do Egito (após 430 anos de escravidão) até os dias de Jesus, a Páscoa foi celebrada basicamente com um sentido reflexivo e gratulatório. Neste período do ano, os hebreus alimentavam-se de pão sem fermento para recordarem o sofrimento que enfrentaram no Egito. Os judeus, sucessores históricos dos hebreus, cumpriam anualmente este mesmo ritual refletindo sobre tal fato e abstendo-se de comer pão fermentado como gesto de solidariedade moral com seus antepassados.
O segundo sentido da Páscoa, gratidão, motivava hebreus/judeus a oferecer culto a Deus, por meio de sacrifícios de animais, agradecendo-o por sua ação de poder em favor de seu povo, ao libertá-lo da escravidão egípcia.
Estas celebrações tinham forte conteúdo pedagógico, como a conscientização das novas gerações do sofrimento de seus irmãos no Egito e da ação poderosa de Deus em seu favor, libertando-os de tão grande opressão.
Jesus deu novo sentido à Páscoa. Para judeus, ela significava libertação do jugo egípcio; para os cristãos, é salvação mediante o sacrifício de Cristo. Hoje a celebramos como um momento também de reflexão e de gratidão, embora com motivações diferentes. A reflexão é feita sobre o sofrimento de Jesus, que entregou sua vida, sofrendo todo tipo de desumanidade, para morrer em nosso lugar. A gratidão a Deus é devido ao seu incomparável e singular presente que é Jesus. Ele veio bondosamente ao nosso encontro e oferece-nos salvação, alegria, libertação, dignidade e paz.
Esta celebração atual tem, também, forte conteúdo pedagógico ao revelar o amor redentivo de Deus por nós, ao demonstrar sua graça maravilhosa em nos acolher – apesar de nossas falhas –, ao nos conceder libertação e paz verdadeiras.
A celebração cristã da Páscoa não termina na sexta-feira com o Cristo crucificado, nem no sábado com o corpo de Jesus na sepultura, mas no domingo, com sua ressurreição gloriosa, o dia da alegria, da vitória e, sobretudo, da paz.
Esta é a nossa páscoa: reflexão e gratidão, pois Deus nos oferece Cristo que é a alegria verdadeira, a vitória plena e a paz perfeita.
Boa celebração da Páscoa, para você e sua família!
Por Clemir Fernandes
8/3/2010 13:21:37 Comentários (0)
A condição da mulher e o exemplo de Jesus
Já foi bem pior a condição da mulher na sociedade. No mundo antigo, ela e as crianças sequer eram reconhecidas plenamente como pessoas dotadas de direitos. Em todas as partes do mundo elas eram reféns dos mais diversos tipos de desrespeitos.
Desde a segunda metade do século XX, principalmente, as mulheres vêm conquistando seus direitos e o respeito que é devido igualmente a qualquer pessoa, seja por condição de gênero (mulher/homem), de etnia (negro/branco) etc.
Embora ocorridos muito tardiamente, os avanços são notórios hoje. Entretanto, há ainda muitos problemas a serem enfrentados para o reconhecimento pleno dos direitos das mulheres, em todas as áreas da sociedade, inclusive nas igrejas.
Essa tarefa é de mulheres e homens, como nos ensina o exemplo supremo de Jesus Cristo. Antes de todas as mudanças e num tempo em que as mulheres eram profundamente desrespeitadas, o Filho de Deus tomou uma posição evangélica, em coerência com sua natureza e missão, ao reconhecer e resgatar a dignidade das mulheres, como nos testificam vários textos do Novo Testamento (Jo 4.5-42; Jo 8.1-11; Mt 15.21-30; Lc 8.1-3 etc.).
Parabéns às mulheres. Que seus direitos sejam praticados e sua dignidade seja valorizada por todos/as, não apenas no dia 8 de março, mas diariamente. Para o bem de todos/as, para a alegria e glória de Deus.
Por Clemir Fernandes
19/2/2010 18:01:52 Comentários (0)
2010, muito pra repensar
2009 foi um ano especial para grande parte dos cristãos: 800 anos de Franciscanismo, 500 anos do nascimento de Calvino e 400 anos de história dos batistas. Todos celebrados em 2009. Que herança para celebrar: o legado de Francisco de Assis, de Calvino e da Reforma Radical.
Finalizando 2009, me assanhei com a idéia de que 2010 era o início de uma nova década e que, portanto, era importante fazer balanços e projetar idéias e planos. Já convencido, por um amigo, de que minha percepção temporal estava equivocada — embora o senso comum possa prevalecer por meio dos jornais e revistas —, talvez não tenha, finalmente, que abandonar a idéia de tomar 2010 como um ano de re-imaginação a respeito do mundo em que vivemos e de nosso engajamento em sua transformação. Apresento, aqui, apenas uns breves indícios das oportunidades para isso.
2010 começou com a terrível tragédia do terremoto no Haiti. A ela se seguiu uma mobilização sem tamanho em solidariedade a um povo que tem experimentado, desde a conquista e mesmo depois de tornar-se uma nação independente, uma trajetória errática na mão de impérios e ditadores que mantiveram os haitianos e haitianas em níveis de pobreza escandalosos.
A discussão sobre as causas da pobreza no Haiti só ajudou a reforçar — e dar razão — a agenda do Fórum Social Mundial, que em 2010 completa seus 10 anos de articulações, debates e proclamação que Um Outro Mundo é Possível. Se é verdade que o Espírito sopra onde quer, não há como negar que o FSM, ao estilo dos profetas hebreus, é uma das vozes que mais gritam no mundo denunciando a injustiça, a desigualdade e a opressão, pecados tão abominados pelo Deus bíblico.
2010 começa, portanto, com a oportunidade de um grande debate a respeito de como participar naquilo que Deus está fazendo no mundo para trazer seu reino de justiça e paz.
Para os cristãos, especialmente evangélicos, há muito o que repensar. 2010 acolhe dois eventos de grande envergadura para discutir a presença cristã no mundo contemporâneo.
Em junho, celebra-se o centenário da Conferência de Edimburgo, primeiro encontro global de igrejas e agências cristãs protestantes para discutir desafios missionários. Especialistas consideram aquela conferência o nascedouro do movimento ecumênico. A Conferência de Edimburgo foi um marco na história do cristianismo por projetar um novo nível de cooperação entre as igrejas protestantes dando uma contribuição fundamental para sua unidade. Como resultado da Conferência de Edimburgo surgiu o Conselho Missionário Internacional, que se juntou posteriormente ao Conselho Mundial de Igrejas, organização fundada em 1948 pelos movimentos Fé e Ordem e Vida e Obra.
Não foi à toa que o Movimento de Lausanne escolheu 2010 para realizar seu III Congresso de Evangelização Mundial, na África do Sul. Os 4 mil participantes de mais de 200 países irão se encontrar em outubro para confrontar os principais desafios e questões críticas do início do século XXI a fim de encontrar os caminhos para continuar a fazer missão em todas as partes do globo.
Todas elas oportunidades que Novos Diálogos não quer deixar de contribuir para repensar nossa identidade e missão no Brasil e na América Latina através da repercussão desses espaços de diálogo em nível global. Afinal, essa é a nossa vocação. E que hora para exercê-la!
Por Flávio Conrado
15/1/2010 12:17:49 Comentários (0)
Consternados mas solidários
Acordei na manhã de quarta-feira (13/01) com as imagens e as notícias a respeito do terremoto que sacudiu o Haiti, matando milhares de haitianos e estrangeiros que moravam no país. A cobertura da mídia, com imagens, vídeos e depoimentos de haitianos tornaram vívida a tragédia que se abateu sobre um país que já experimentava a precariedade da pobreza e do baixo desenvolvimento.
Imagino que muitos estarão buscando explicações para tão grande tragédia. Não faltarão aqueles que vão recorrer a respostas religiosas. Outros vão reivindicar a insofismável autoridade da ciência geofísica. Outros se resignarão a calar-se seja diante do imponderável da natureza, seja dos inescrutáveis desígnios de Deus. Veja, por exemplo, o artigo de Paulo Nascimento – Sobre o Haiti, Zilda Arns, silêncio e jardinagem. Uma coisa é certa: para além das explicações diante de fatos trágicos ainda inacessíveis à compreensão humana, apresenta-se diante de nós o desafio da solidariedade e da ação conjunta a fim de resgatar os que morreram e os que sobreviveram, cuidar dos feridos seja na atenção dos primeiros socorros seja nas medidas mais complexas, mapear todos os danos ocorridos, levantar os fundos necessários para as ações de emergência e a reconstrução da infra-estrutura necessária para que o país volte à normalidade, se é que isso pode voltar a acontecer depois de tamanha tragédia.
[Em 2006, numa visita à cidade de Hiroshima por ocasião da assembléia mundial de juventude de Religiões pela Paz, ficou claro para mim como a memória da tragédia que se abateu sobre aquela cidade (a bomba nuclear que foi lançada pelos EUA pondo fim à Segunda Guerra Mundial), levou-a a erigir-se não apenas como protagonista na luta pelo fim das armas nucleares no mundo, como também guardadora da memória dos seus mais de 140 mil mortos! Hiroshima nunca mais voltou a ser a mesma depois de 06 de agosto de 1945.]
A morte de uma brasileira em particular marcará a memória do terremoto do Haiti, a da Dra. Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, iniciativa responsável pelo cuidado de milhões de crianças brasileiras desde 1983. Indicada três vezes para o Prêmio Nobel da Paz, Dra. Zilda Arns era incansável nos seus mais de 70 anos em continuar a propagar a crença cristã de que é possível salvar vidas, melhorar a qualidade de vida de crianças e famílias, mobilizar milhares de voluntários para entrar na ciranda da solidariedade, dar atenção e orientação para cuidados básicos a grávidas e mães em fase de aleitamento, promover a paz nas famílias prevenindo maus-tratos e abuso infantil, entre tantos outros bem-fazeres às 40 mil comunidades pobres do Brasil e de outros 20 países com a presença da Pastoral da Criança. O artigo de Lissânder Dias – A singeleza de uma notável – destaca algumas das facetas da sua atuação.
Com a memória de nossa querida Zilda Arns e seu legado, unamo-nos às iniciativas locais e internacionais a fim de aliviar o sofrimento dos haitianos e haitianas, e fazendo assim, seguimos o caminho de Jesus, caminho de solidariedade e de compaixão.
A Visão Mundial tem presença no Haiti e está recebendo doações para as ações de emergência. Vá até o endereço www.visaomundial.org.br e saiba como fazer a doação.
Por Flávio Conrado
18/12/2009 14:07:59 Comentários (0)
Novos Diálogos em torno da Justiça, da Espiritualidade e da Cultura
O final do século XX viu o redescobrimento dos temas da espiritualidade e da ética depois de uma profunda crise civilizacional que pôs em questão as promessas da modernidade e suas idéias de progresso, desenvolvimento e bem-estar para todos. A globalização capitalista neoliberal aprofundou as desigualdades e injustiças no século dos Direitos Humanos.
Associada à idéia de pós-modernidade, reafirma-se a importância da espiritualidade, das emoções, dos afetos e da cultura para a transformação da humanidade. Volta-se a enfatizar a necessidade de uma ética pessoal e social comprometida com mudanças estruturais associada a um esforço coordenado na área da educação para os Direitos Humanos, para a Cultura de Paz e para o Desenvolvimento Sustentável. Estas mudanças societais tornam propícias a superação de dicotomias anteriormente vigentes, favorecendo a rearticulação entre os domínios das subjetividades, cosmovisões e a do engajamento em transformações duradouras e estruturais na sociedade.
A Reforma Protestante (em suas vertentes, Luterana, Calvinista, Anglicana e Radical) revigorou a ética cristã combinando rigor pessoal com reformismo social. Os movimentos protestante e evangélico têm uma herança fabulosa de lideranças, iniciativas, causas abraçadas que dignificam a vocação cristã e nos demonstram a irrecusável garantia de que temos um chamado para ser sal e luz neste mundo injusto.
No entanto, lideranças oportunistas, uma mentalidade conservadora e pouco informada e o desconhecimento das diferentes tradições cristãs permanecem como entraves para que o protestantismo se torne uma verdadeira força ativa de transformação social e cultural na América Latina.
Para isso, entendemos que é fundamental a produção de reflexão consistente, informações qualificadas e conexões pertinentes que potencializem o trabalho exemplar das estruturas e iniciativas transformadoras e renovadoras da atuação e missão protestante através de metodologias inovadoras.
Neste contexto, nasce a Revista Novos Diálogos – justiça, espiritualidade e cultura, uma publicação eletrônica que se propõe a ser expressão de um novo cristianismo radical, surgido da prática da fé evangélica na sua relação com a prática social e com a cultura latino-americanas, na perspectiva da espiritualidade integral e transformadora do Reino de Deus.
Convidamos você a tomar parte nesta proposta e caminhada, abrindo-se para novos diálogos.

Dilemas Contemporâneos
Rir é também pensar
Vinoth Ramachandra