23/8/2010 16:11:25 Comentários (0)
Ainda repensando a missão
Assim que eu coloquei meu post anterior, li por casualidade um artigo excelente de Karla Ann Koll no volume de abril da International Bulletin of Missionary Research. Koll é professora de teologia em Costa Rica e diz melhor que eu, anedoticamente e com sólida análise acadêmica, o que necessita ser dito sobre a questão “viagens missionárias de curto prazo”. Eu recomendo o artigo para ser estudado por toda organização evangélica rica.
Logo depois do desastre do Tsunami de 26 de dezembro de 2004 no Sri Lanka, Tailândia e Indonésia, centenas de ONGs estrangeiras surgiram repentinamente, duplicando e competindo desnecessariamente entre si. “Equipes missionárias” bem-intencionadas, com pouca experiência de reabilitação e ajuda, cometeram todos os erros clássicos da ajuda externa (materiais para construção de casas inapropriados, doação a pessoas erradas, e assim por diante). Alguns líderes cristãos locais se tornaram adeptos não apenas de dançar a música tocada pelos doadores estrangeiros mas de compor as músicas que eles gostam de ouvir. Dinheiro corrompe tanto quanto ajuda.
Havia, entretanto, o outro lado da história. Nós nos beneficiamos enormemente do serviço espontâneo e sacrificial de muitos (cristãos e não-cristãos) de nações ocidentais e também de outras nações asiáticas. Houve, com frequência, homens e mulheres com habilidades técnicas e aqueles que vieram pra servir ao lado de suas contrapartes locais. Muitos deles decidiram ficar por seis meses, senão por mais tempo. Alguns jovens sem capacidade técnica simplesmente chegaram e se ofereceram para fazer trabalhos domésticos ao lado de gente local preparada. A contribuição de todas essas pessoas à ajuda imediata assim como para a reabilitação de longo prazo de vidas e comunidades é incalculável. É uma pena que nós no Sudeste Asiático não pudemos agir reciprocamente quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleans um ano depois. A despeito de toda a retórica hoje sobre “missão de todo lugar para qualquer lugar”, os controles de fronteiras determinam a direção atual do serviço cristão.
Minha preocupação principal no último post não era a duração de tais viagens. Não era como se eu estivesse recomendando “missão de longo prazo” oposta à “missão de curto prazo”. Era, antes, o modo como o conceito mesmo de missão tem sido reduzido em muitos círculos evangélicos a “ir às nações” ou o que nós fazemos com cristãos caridosos em sociedades que não a nossa. Daí as divisões desastrosas — tanto em igrejas quanto em seminários teológicos — entre “missão” e “ética”, o “pessoal” e o “político”, “proclamação” e “diálogo”. Ao contrário dos primeiros discípulos de Jesus, aqueles de nós que vivemos em grandes cidades encontramos pessoas de todas as culturas e afiliações religiosas cotidianamente. Nós podemos também fazer uma enorme diferença na vida das pessoas em outras partes do mundo mudando nossos padrões de consumo, falando em nome daqueles que são afetados pelos nossos estilos de vida e desafiando as políticas e práticas de nossos governos. Isto se aplica tanto a lugares como Índia e Singapura quanto aos Estados Unidos ou Inglaterra.
Para aqueles de nós que vivemos em situações de pobreza, violência e tirania, Jesus nos exortou a nos tornarmos como “grãos de mostarda” que “caem na terra e morrem” (João 12:24): em outras palavras, ficar ao invés de “partir”, compartilhando livremente a dor e a desesperança de outros como uma testemunha da extraordinária esperança do Evangelho (Há vezes, claro, quando nós precisamos fugir — e não se sentir culpado por isso — mas apenas se nós podemos fazer melhor estando fora, para aqueles que nós deixamos pra trás). As únicas “metodologias” da missão que frutifica que Jesus deu à sua igreja foram os princípios de morrer e amar (unidade); mas estas custosas práticas de discipulado que transformam vidas são as que nós continuamos a ignorar em nome de “missões”. Ironicamente, estamos agora numa situação global onde cristãos ricos fazem incursões de “curto prazo” em países pobres, enquanto cristãos pobres (e cristãos ricos de países pobres) fazem viagens de “longo prazo” aos países ricos. Eu me pergunto que Boas Novas está sendo comunicada ao mundo dessa maneira? Como demonstramos a encarnação de Deus em corpos humanos vulneráveis e frágeis, e num lugar e tempo particular, quando o culto do consumo globalizado nos empurra na direção contrária?
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/05/21/more-on-re-thinking-mission/
10/8/2010 18:44:09 Comentários (0)
Quem diz “não” a “viagens missionárias”?
Aqui está uma estatística assombrosa com a qual eu cruzei recentemente. Robert Wuthnow, eminente sociólogo da religião da Universidade de Princeton, estimou que mais de 1.6 milhão de cristãos americanos participam de “viagens missionárias” no exterior a cada ano, com igrejas gastando pelo menos 2.4 bilhões de dólares por ano nessas viagens. O que não é surpreendente é que muitas destas “viagens missionárias” de uma a três semanas são para o Caribe e América Central, que tem luxuosos resorts como as Bahamas que dizem ter um “missionário de curto prazo” para cada 15 habitantes. Seria esperado que o México, que recebe a maioria das “equipes missionárias” americanas a cada ano, fosse a nação mais cristã sobre a terra.
No tempo que eu era um estudante universitário em Londres, tinha amigos que vinham de todos os povos do mundo. Eles abraçavam todas as religiões e nenhuma. Alguns deles ainda permanecem meus amigos. Ocasionalmente eu colocava a mochila nas costas e “vagabundeava” pela Europa. Eu viajava de trem e ônibus público, ficava em albergues da juventude ou dormia em estações de trem como milhares de outros jovens turistas. Não havia nada melhor que chegar numa cidade desconhecida e explorá-la de um canto a outro (ou tanto quanto possível) a pé. Algumas vezes eu fazia contato com igrejas locais e, se eu falasse um pouco o idioma, me juntava ao culto dominical. Antes de visitar um país, não apenas estudava minuciosamente os mapas para me familiarizar com a geografia, mas devorava livros sobre sua história, incluindo a história e a realidade presente da igreja cristã.
Meus pensamentos retornam a estas experiências quando minha esposa e eu recebemos pedidos de algumas igrejas ocidentais (ou igrejas asiáticas ricas) para encontrar alguém no Sri Lanka ou na Índia que queira receber um grupo de jovens que desejam realizar uma “viagem missionária”. Nós não duvidamos da sinceridade daqueles que querem praticar o amor ao próximo ou compartilhar o evangelho com pessoas em outros países. Mas boas intenções, a história nos recorda, nem sempre se traduz em bons resultados. Entretanto, aqueles que estão entusiasmados por tais “viagens missionárias” normalmente não têm tempo para estudar história.
É costume os líderes de tais equipes nos informar que tal “exposição” é absolutamente vital para estes (relativamente ricos) garotos descobrirem o mundo e se tornarem (espera-se) missionários no longo prazo. “Missão”, nessa maneira de pensar, é o que alguém faz em outro lugar, não na nossa própria vizinhança ou nação. Ficamos confusos: por que estes jovens cristãos não podem aprender sobre o mundo fazendo o que eu e muitos milhões de seus pares não-cristãos têm feito há décadas — simplesmente viajando como turistas e explorando os países visitados, aprendendo sobre a história e cultura ao fazê-lo. Além disso, na América, Europa e Austrália, há milhões de pessoas hoje de qualquer religião, cultura ou nação que podem ser encontradas em quase qualquer grande cidade: Por que não ficar e aprender sobre “missão” nas igrejas locais que estão trabalhando com tais pessoas?
Também nos deixa confusos por que tais cristãos precisam primeiro ter uma “exposição” à missão antes de se engajar em missão, quando a grande maioria de missionários no mundo são pobres e incapazes de poder pagar tais viagens custosas. Tendo o passaporte de uma nação rica, e não necessitando de visto para a maioria dos países, fica fácil ser um “missionário de curto prazo”. Eu ouvi recentemente de duas mulheres chinesas que se sentiram chamadas para serem missionárias no Camboja. Então elas simplesmente foram para lá por via terrestre, começaram a trabalhar numa indústria e se juntaram a uma igreja local. Elas não planejaram primeiro uma “viagem missionária” para ter “exposição”; nem elas estão iniciando outro “projeto de plantação de igreja”. Nós nos pegamos perguntando: Como a missão cristã se tornou reduzida a “missões” e agora a “viagens missionárias”? Qual poderia ser o dano em se vir simplesmente como um turista, se alguém está seriamente curioso sobre um lugar? Se, por outro lado, alguém quer vir e servir a igreja nativa, por que não simplesmente fazer o que as duas mulheres chinesas fizeram?
Há poucos cristãos asiáticos que recusariam abertamente receber tais “equipes missionárias”. Os mais oportunistas entre nós tendem a ver tais visitas como uma oportunidade de receber favores de volta: um presente de despedida ou um convite no futuro para visitar um membro da equipe no país dele ou dela, por exemplo. Mas a maioria dos cristãos asiáticos não recusaria simplesmente porque a hospitalidade é um valor estimado e uma tradição antiga, especialmente entre os pobres rurais. Eu me lembro de um pastor birmanês uma vez me contando, ao lhe perguntar por que as igrejas birmanesas continuavam a receber graciosamente visitas de cristãos ricos de Singapura indo como “instrutores de evangelismo” (para as igrejas birmanesas que tinham muito mais para ensinar aos singapurianos sobre evangelismo do que vice-versa). Ele simplesmente respondeu: “Nós temos dificuldade de dizer ‘não’ aos visitantes”.
Este é apenas um dos dilemas. É extremamente difícil para nós dizer a zelosos cristãos americanos, singapurianos ou coreanos que eles não são realmente necessários. Enquanto há muito para conversar sobre “parcerias missionárias” nestes dias, as teologias da missão que sustentamos são raramente examinadas e desafiadas num encontro rico-pobre genuíno. O mundo de “missões” parece desesperadamente fragmentado — e mais pragmático que nunca. Enquanto este estado de coisas continuar, a prática da “parceria” não será tendenciosa em favorecer aquelas igrejas com as maiores carteiras e vozes mais altas?
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/05/07/who-says-no-to-mission-trips/
31/7/2010 19:54:16 Comentários (0)
O negócio da pobreza
O pobre, na verdade, não precisa de nós. A menos, é claro, se eles estão completamente destituídos, seriamente doentes ou inválidos, ou vítimas de guerra ou de desastres naturais. O que eles precisam não é nossa caridade mas o reconhecimento de seus direitos. Eles querem que removamos as barreiras que nós (os ricos) erguemos, localmente e globalmente, e que os impede de participar no seu próprio desenvolvimento sustentável. Em nível global, isto significaria algumas coisas como remover os subsídios pesados dados pelas nações ricas ao seu agronegócio, parar com as práticas de taxação (barreiras tarifárias) discriminatória sobre produtos importados das nações pobres, acesso aos medicamentos — que salvariam muitas vidas e que foram roubados de suas florestas — e parar a destruição de suas fontes de água, solo, pântanos e atmosfera através das emissões de gases de casas de inverno luxuosas.
Americanos estão entre os povos mais generosos e de bom coração que conheço. Mas é difícil para eles aceitar que seu estilo de vida é, na verdade, subsidiado pelos pobres do mundo. É por isso que livros como o de [Gregory] Mortensen são “inspiradores” para os conservadores, mas um [Noam] Chomsky ou um [John] Pilger são instantaneamente demonizados (se é que eles são lidos).
A despeito de toda a retórica sobre “eficiência de mercado” e “ajuda externa”, a rede financeira circula na economia mundial, a cada ano, do pobre para o rico, não do rico para o pobre. Pagamentos de dívidas, tarifas de exportação e queda de preços de produtos agrícolas causado por subsídios das nações ricas aos agricultores significa que as nações de baixa renda transferem àquelas cerca de 50 a 60 bilhões de dólares por ano, mais do que recebem na chamada “ajuda”. Precisamos colocar nessa conta o custo de exportação de engenheiros, cientistas, médicos e contadores das nações pobres para as ricas, a maioria dos quais treinados em instituições estatais às expensas de contribuintes locais — e eles são ativamente recrutados por corporação e governos ricos. Mas, para obter um quadro mais acurado, devem-se incluir também as fortunas de empresários e políticos que são enviadas para bancos da Europa e América do Norte, e os lucros das corporações multinacionais que são remetidos para suas matrizes no Norte.
Ademais, a corrupção nas nações pobres não seria possível sem o apoio tácito e o frequente e ativo envolvimento de corporações ricas, bancos e governos do Norte. Porque para cada propina recebida, há uma propina oferecida. Há propinas que são guardadas no sistema bancário de propriedade e controle das nações ricas (incluindo, em anos recentes, Dubai e Singapura). E o que dizer do status de paraíso fiscal (a maioria dos quais são parque de diversões de turistas norte-americanos e europeus super-ricos)? Estes são os principais meios de evasão de divisas e lavagem de dinheiro e são os lares de vastos montantes de capital especulativo que desestabiliza as economias pobres. Bilhões de dólares, o bastante para pagar por todas as necessidades de saúde e educação básicas dos países em desenvolvimento, estão sendo desviados através de empresas de paraísos fiscais.
Eu perguntei a um amigo africano que já trabalhou com uma agência da ONU no Sri Lanka: “Algum dos seus colegas que trabalha nas Nações Unidas escolheu trabalhar lá porque se preocupa com os pobres no Sri Lanka?”. Ele olhou para mim como seu eu tivesse vindo de outro planeta: “Claro que não”, ele disse, “é bom para a carreira passar alguns anos num lugar como o Sri Lanka”. Claro, eu tenho certeza que há muitos que são motivados por uma compaixão genuína ao trabalhar entre vítimas de guerra, mulheres que foram abusadas ou pobres. Mas é fácil se tornar cínico em relação ao “jogo do desenvolvimento” (ora outra “consulta externa” bem paga entrando para outro seminário sobre pobreza num luxuoso hotel; ora outro “comitê de especialistas” ou “instituto de políticas” sobre enfrentamento da pobreza ou resolução de conflitos; ora outra tese de doutorado ou artigo sobre esses temas porque há fundos facilmente disponíveis embora nenhum dos resultados jamais seja divulgado para ajudar as pessoas que foram entrevistadas, medidas, categorizadas e de cuja hospitalidade o pesquisador dependeu). Pobreza, tanto quanto a guerra, tornou-se um grande negócio. Assim, é fácil ser cínico quando aqueles que sofrem são tão frequentemente explorados quando se tornam escadas para a honra acadêmica ou fortuna pessoal.
Mais de 200 anos atrás, Adam Smith e William Pitt recomendaram que as colônias americanas se concentrassem em produtos agrícolas e deixassem produtos industrializados para a Europa que tinha “vantagem comparativa” naquela área. Americanos são muito sortudos nisso porque seu primeiro Secretário do Tesouro, Alexander Hamilton, persuadiu o Congresso em 1791 de não considerar a sabedoria econômica da época. Talvez devamos fazer o mesmo pelos pobres do mundo — sugerir que eles fariam bem em voltar as costas aos “consultores/especialistas” bem pagos do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial ou do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e mesmo os “trabalhadores das ONGs de desenvolvimento” que correm atrás deles em seus utilitários esportivos e, em vez disso, aprender a confiar mais nas suas próprias habilidades e conhecimento pragmático.
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/01/15/the-poverty-business/
(Tradução de Flávio Conrado)
23/7/2010 12:20:10 Comentários (0)
Encarnação versus Avatar
Finalmente, encontrei tempo para ver Avatar de James Cameron. Sem dúvida, assisti-lo numa tela de computador não se compara com a experiência de vê-lo em 3D no cinema. Como trabalho cinematográfico, é incrível no seu poder visual. Mas por detrás dos efeitos especiais e fantásticas simulações computadorizadas, qual é a mensagem que o filme expressa? Isto não é fácil de responder. Muitos críticos têm atacado o filme por abastecer as caricaturas e estereótipos de Hollywood sobre as sociedades não ocidentais e ser condescendente com o complexo do "Messias branco". Mas há mais coisas interessantes conectadas com o fascínio de Cameron pela tecnologia, bem expostas num artigo recente de Daniel Mendelsohn sobre ele na New York Review of Books.
Muitos dos filmes de Cameron tem a ver com o encontro violento entre civilizações humanas (ocidentais) e alienígenas, o encanto do monstruoso e o desejo de transcender nossas limitações humanas mesmo ao ponto de trocar nossos corpos físicos por novos. O Homo Sapiens é uma espécie muito comum, feia ou sem graça para o gosto de Cameron. Em O Exterminador do Futuro (1984), seu primeiro filme e aquele que fez seu nome como escritor-diretor de extraordinária técnica e poder imaginativo, Arnold Schwarzenegger interpreta o membro de uma raça aparentemente invencível — ciborgues que odeiam humanos que retornam para o presente num invólucro humano para assassinar a mulher que dará à luz o homem destinado a liderar a humanidade na rebelião contra os ciborgues (o filme parece criado para Schwarzenegger que a maioria de nós acreditou que era um ciborgue de verdade). Na medida em que o filme progride, esta criatura perde mais e mais de suas próteses humanas na luta com os protetores da mulher; e finalmente, surge de uma explosão como um esqueleto cromado que devasta tudo no seu caminho.
Nosso relacionamento com a tecnologia é a questão no coração de Avatar, assim como foi com a maioria dos primeiros filmes de Cameron; seus heróis e heroínas se tornam mais e mais como máquinas na guerra com as máquinas. Os seres humanos fundem-se com máquinas para adquirirem força sobrehumana. Aliens, o Resgate (1986), outro filme que ele escreveu e dirigiu, teve Sigourney Weaver lutando com uma criatura alienígena, uma rainha, amarrando-se a uma empilhadeira gigante cujas sólidas garras ela era capaz de manipular com seus braços esbeltos. Em Avatar, o marinheiro deficiente físico Jake Sully é transformado num navi brilhoso, atlético e firme sendo amarrado num sarcófago e enganchado com componentes eletrônicos que controlam seu cérebro.
De um lado, há uma mensagem claramente anticapitalista e antitecnológica. Os vilões são o mundo corporativo industrial-militar que quer roubar os navi de seus ricos recursos minerais. Eles estão simbolizados em monstruosos helicópteros de combate e pesada maquinaria de mineração. Jake é, inicialmente, um espião para o mundo corporativo que está manipulando a ciência para seus próprios fins. Isso acontece antes dele se apaixonar por uma mulher navi. Os navi são retratados, em comparação, como uma sociedade completamente em sintonia com a natureza: caçadores-coletores que se desculpam solenemente com os animais que eles são forçados a matar.
Por outro lado, os navis não são simples "primitivos". Em certo momento do filme, a cientista-chefe declara num tom maravilhado que sua deusa Ewa é nada menos que uma "rede global" — ao qual os navis estão conectados por cabos orgânicos capazes de fazer "uploads" e "downloads" de consciência. Os navi representam a perfeita síntese de carne e máquina, tecnologia e religião. Os heróis são pré-civilizados e hipercivilizados; a tecnologia é tanto salvadora quanto destruidora.
No fim do filme, enquanto o avatar de Jake lidera os navis em uma revolta vitoriosa contra os agressores imperialistas, seu corpo humano moribundo é levado de volta a Pandora. Numa cerimônia religiosa, a consciência humana de Jake é carregada permanentemente no seu avatar navi. Jake é despojado de sua humanidade e se torna agora um membro permanente do novo mundo sem sofrimento de Pandora.
Esta é, essencialmente, a visão do pós-humanismo (algumas vezes chamada de trans-humanismo), que é o gnosticismo do século 21. A espécie humana produzida pela seleção natural é uma vergonha. Tem que ser modificada em nome da liberdade, a liberdade para maximizar nosso potencial latente. O humano tem que passar por uma reengenharia através da tecnologia, e seja o que isso signifique — de melhoramentos genéticos a nanotecnologia — pode servir a este projeto pós-humano deve ser promovido.
A mensagem bíblica da encarnação aponta numa direção diferente. A Palavra acolhe a carne humana, afirmando nossa finitude de criatura e natureza temporal. É na fragilidade e na vulnerabilidade que Deus escolhe revelar seu poder. É como se Ewa (a deusa de Pandora em Avatar) escolhesse entrar no mundo de Jake através do corpo maltrapilho de Jake a fim de transformar nossas atitudes para com pessoas como Jake. Os cristãos compartem com os pós-humanistas a crença na necessidade de transformação dos humanos. Mas nós discordamos profundamente sobre o propósito e a fonte dessa transformação. A cura de nossa humanidade quebrada e desfigurada é trazida através de uma transformação realizada pelo transcendente — mas esta esperança escatológica de ressurreição não é nunca o cancelamento de nossa humanidade corporalizada.
O ciborgue é o ícone pós-humanista. Ele simboliza o apagamento das fronteiras que separam o orgânico do mecânico, o natural do artificial, dando-lhe desse modo maior controle sobre tempo e espaço. Como o bioeticista Brent Waters aponta: "A despeito da melhor cirurgia plástica, melhoramentos tecnológicos e relações públicas que o dinheiro possa comprar, as celebridades envelhecem, perdem encanto e seus talentos se apagam. Ao contrário do ciberespaço, fronteiras finitas não são inteiramente maleáveis e, no final das contas, o tempo não pode ser transformado em tempo virtual".
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/04/23/incarnation-vs-avatar/
(Tradução de Flávio Conrado)
17/7/2010 22:47:03 Comentários (0)
Uma celebração centenária
Exatamente há 100 anos, uma memorável Conferência Missionária Mundial foi realizada em Edimburgo, Escócia. A conferência reuniu cerca de 1200 representantes de igrejas protestantes e sociedades missionárias para estudar a situação do mundo vis-à-vis a fé cristã e para fazer planos para a evangelização das “nações não-cristãs” (foi excluída a Europa, América do Sul e do Norte). Questionários tinham sido enviados de antemão a vários missionários que trabalhavam na Ásia, África, Oriente Médio e Pacífico Sul. Os palestrantes e os entrevistados eram esmagadoramente homens brancos norte-americanos e europeus que dominavam os centros de poder missionário e eclesiástico. Nenhum africano nativo falou pelo cristianismo africano, nem havia muitos representantes de igrejas locais fora do mundo europeu.
Mais sobre os relatórios fascinantes que emergiram desta conferência e como nossa compreensão das questões que eles trataram mudou nos últimos 100 anos pode ser encontrado no volume Edinburgh 2010: Mission Then and Now (Oxford: Regnum Press, 2009) – no qual eu tenho um ensaio explorando o bem conhecido Relatório da Comissão IV que tratou da “Mensagem Missionária Relacionada à Religião Não-Cristã”.
Eu estava em Edimburgo para a celebração centenária da conferência de 1910. Os números eram um pouco menores que há 100 anos, principalmente por causa de restrições financeiras; mas havia uma grande audiência pela Internet já que muitas das sessões foram transmitidas “ao vivo”. A conferência foi também o ápice de um processo de estudo de dois anos que ocorreu na maioria das regiões do mundo. Muitas das apresentações surgiram deste processo que pode ser conhecido no site de Edimburgo 2010.
Eu fui um dos três participantes-painelistas que foram convidados para compartilhar suas ideias sobre a conferência na sessão plenária final. Eu disse que, em termos de tradições eclesiais, este foi provavelmente o encontro mais abrangente realizado no século passado. Havia oradores da Igreja Católica Romana, Igreja Ortodoxa Oriental, igrejas protestante e pentecostais. Eu expressei a esperança de que como uma das consequências da conferência de 1910 tinha sido o nascimento do movimento ecumênico e o desmantelamento das fronteiras entre o Norte e o Sul global; assim, poderíamos intencionalmente derrubar as fronteiras que nos dividem em “ecumênicos”, “evangélicos”, “pentecostais” e assim por diante? Missão e unidade, verdade e justiça, razão e emoção, devem andar juntas.
Talvez a barreira que enfrentamos que mais nos divide seja aquela entre pastores/clero e o resto de nós chamados “leigos”. Todos os palestrantes que se dirigiu a nós durante a conferência eram bispos ou pastores, professores de seminários ou líderes de instituições cristãs. Isto perpetua o enorme “ponto cego” relacionado à missão em nossas igrejas. Certamente, a principal maneira pela qual a igreja impacta o mundo é através do trabalho diário de homens e mulheres cristãos em escritórios, escolas, fábricas, conselhos municipais, laboratórios de pesquisa, salas da direção das empresas, e assim por diante. Estes são os lugares contemporâneos da missão cristã. Mas onde estavam estes homens e mulheres em Edimburgo?
Minha mulher e eu trabalhamos, principalmente, com cristãos em ocupações seculares, lhes ajudando a viver o Evangelho e a comunicar a verdade e a justiça de Deus nos campos da ciência, dos negócios, das artes, da medicina, da educação etc. Estes homens e mulheres que se engajam como cristãos no mercado secular estão na vanguarda da missão.
Ademais, há muitas pessoas interessadas que são profundamente atraídas por Jesus mas francamente desconcertadas pelo que vêem na igreja. Elas vêem falta de integridade: um enorme abismo entre a mensagem que a igreja proclama e a forma como seus líderes se comportam, inclusive na relação uns com os outros. Como um movimento socialmente subversivo e igualitário no culto e no seguimento de um judeu crucificado mudou tão rapidamente numa instituição religiosa anti-semita, patriarcal e hierárquica? Sejamos pentecostais ou católicos romanos, necessitamos sempre voltar a esta velha questão. Nós, na Ásia e na África, não podemos continuar culpando a cristandade. Eu me divirto vendo quantos de nossos bispos e líderes eclesiais do Sul Global que condenam implacavelmente a cristandade ocidental apegam-se tão tenazmente aos títulos e status e formas de se dirigir (e vestir!) que eles herdaram da cristandade.
O clericalismo tem mutilado o testemunho da igreja. Não apenas devido a formas autoritárias de liderança mas o modo como tanto gira ao redor do clero e seus programas. Na minha experiência, homens e mulheres “leigas” de diferentes origens eclesiais raramente têm problemas ao trabalhar juntos no enfrentamento de problemas comuns. Eles não têm território sagrado para proteger. John R. Mott, o arquiteto da conferência de Edimburgo de 1910 era um leigo metodista. Foi sua experiência de trabalhar com o Movimento Voluntário Estudantil e a Associação Cristã de Moços [YMCA, na sigla em inglês] que criou as bases ecumênicas para aquela conferência. Se ele deixasse para os líderes eclesiais e as sociedades missionárias denominacionais, Edimburgo 1910 provavelmente não teria acontecido.
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/06/11/edinburgh-a-centenary-celebration/
(Tradução de Flávio Conrado)
9/7/2010 02:17:01 Comentários (0)
A Vida dos Outros
“É tão irreal quando você ouve isso aqui, num país livre e tranquilo”.
Assim escreveu uma estudante suíça ao ouvir da intimidação, extorsão, prisões arbitrárias e assassinatos que se tornaram parte da cultura política do Sri Lanka em anos recentes. É difícil para uma jovem europeia como ela recordar que a Alemanha nazista, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco e o Portugal de Salazar, para não mencionar os horrores da União Soviética, não são exatamente história antiga. É o único alento que nós, de países como o Sri Lanka, temos – olhando como outras nações têm se recuperado de seus próprios pesadelos aparentemente sem fim.
É difícil para cidadãos suíços amantes da paz e respeitadores da lei que caminham nas ruas de Zurique e Berna admitir que debaixo de seus pés está a riqueza de muitas nações pobres. O sigilo dos bancos suíços e paraísos fiscais (muitos dos quais são protetorados britânicos) encorajam a evasão fiscal, a corrupção e a lavagem de dinheiro em larga escala. É impossível enfrentar o gangsterismo político em países pobres quando o sistema bancário global ajuda a malversação e o roubo de fundos e recursos públicos. Apenas depois da perda de receita nos países europeus e o desastre recente das subprimes que governos ocidentais têm exercido pressão sobre Lichtenstein, bancos suíços e outras instituições para relaxar suas normas de confidencialidade. Apenas quando o rico sofre é que mudanças são prováveis de acontecer.
Além disso, muitos dos conflitos mais prolongados nos últimos anos têm suas raízes na política imperial britânica – por exemplo, Palestina, Iraque, Caxemira, Nagaland, Miamar, Zimbábue. A história continua a dominar o presente. O genocídio em Ruanda em 1994 não foi a repetição de antigas rivalidades tribais mas a consequência direta das práticas coloniais belgas e da “ciência racial” alemã. A maioria das 53 nações-Estado da África devem suas fronteiras à uma conferência em Berlim em 1884 onde potências europeias recortaram quase todo o continente entre elas.
Quem pode compreender a política no Oriente Médio hoje sem conhecer as políticas manipuladoras da Inglaterra e da França durante e depois do colapso do Império Otomano? Administradores britânicos esculpiram o estado moderno do Iraque, desenhando suas fronteiras de uma tal maneira que todas as suas enormes reservas de petróleo pertenceriam a eles e não aos turcos, e negando ao regime títere local que eles instalaram em Bagdá o acesso ao mar através da criação de um estado-tampão que eles chamaram Kuwait. Cada tentativa de iraquianos e iranianos, desde princípios da década de 1960, para nacionalizar seus suprimentos de petróleo e se tornarem democracias encontrou a força de britânicos e americanos em defesa de suas companhias de petróleo.
A produção e comércio de armas pequenas é outro exemplo de como as nações europeias são cúmplices em conflitos civis e no crime organizado em outras partes do mundo. Companhias na Bélgica e na Suécia, dois “países livres e pacíficos”, estão entre os maiores comerciantes de armas pequenas.
Um painel de especialistas independentes relatou para o Conselho de Segurança da ONU em outubro de 2002 como 85 companhias baseadas na Europa, Estados Unidos e África do Sul (incluindo nomes conhecidos como o Barclays Bank, De Beers e Anglo-American) tinham transgredido normas éticas ao lidar com redes criminais que tinham pilhado recursos naturais da República Democrática do Congo. A luta pelo ouro, diamantes, cobalto e cobre por parte de oficiais do exército, funcionários do governo e empresários do Congo e países vizinhos geraram bilhões de dólares que seguem sua rota para companhias mineradoras e instituições financeiras. Foi tão lucrativo o saque que houve tentativas de prolongar a luta estimulando o conflito entre milícias rivais e rebeldes.
Considere Papua, a província exuberante e rica em minerais do leste da Indonésia, conhecida anteriormente como Nova Guiné Holandesa. O governo dos EUA obrigou, em 1962, a Holanda a transferir o controle administrativo da região para o governo da Indonésia, a despeito da ampla oposição dos povos nativos. Estes eram, na sua maioria, animistas ou cristãos, não muçulmanos. Os EUA consolidaram sua aliança com o regime despótico de Suharto contra a “ameaça comunista” no Sudeste da Ásia e ganharam lucrativas concessões de mineração para suas companhias. Hoje, companhias mineradoras dos EUA e da Austrália trabalham em conjunto com o governo central indonesiano saqueando esta província, a maior da Indonésia, de suas riquezas e roubando a população local de seu patrimônio natural. Permanece como uma das regiões menos desenvolvidas do país em termos econômicos. Uma insurreição de pouca importância tem sido brutalmente suprimida com muitas violações de direitos humanos. Mas quem na Austrália ou nos EUA se preocupa com o que suas companhias fazem no exterior, ou com a difícil situação dos cristãos locais de Papua?
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2009/05/08/the-lives-of-others/
(Tradução de Flávio Conrado)
21/6/2010 00:55:11 Comentários (0)
Democracia liliputiana
Imagine que você viva na adorável ilha de Liliput. Como sua homônima em Viagens de Gulliver, Liliput é habitada por um povo minúsculo: em sua maior parte pequeno em estatura e em perspectiva, pequeno e insignificante no mundo das nações. Sua ilha, também, como na Liliput de Gulliver, é governada por um autodenominado imperador. Mas, como sua Liliput também é uma democracia constitucional, este imperador é obrigado a manter eleições nacionais para assegurar outro mandato como chefe de estado. Assim ele faz de maneira bem-sucedida, retendo o poder com uma bela maioria. Ele convidou alguns monitores internacionais para observar o processo eleitoral, comeram em restaurantes luxuosos e tiveram um maravilhoso feriado às expensas dos impostos locais de Liliput. Retornaram às suas casas e escreveram relatórios radiantes sobre como tudo tinha passado tão pacificamente e como a democracia estava florescendo em Liliput.
Mas você, que vive lá, sabe que é tudo conversa mole. O imperador já tinha rasgado a Constituição de Liliput em seu primeiro mandato como chefe de estado. Não há mais comissões independentes em Liliput. O ministro da justiça e o comissário eleitoral foram indicados pelo imperador. Cada lei sob o Decreto Eleitoral liliputiano foi violada pelos partidários do imperador no período pré-eleitoral: fundos públicos para sua campanha publicitária, mídia controlada pelo Estado dominada pelo imperador e candidatos rivais excluídos de sua cobertura, funcionários do governo empregados como funcionários privados do imperador, provedores de serviço para celulares obrigados a transmitir suas mensagens de campanha e jornalistas que criticavam esses abusos de poder intimidados e fisicamente agredidos por esquadrões criminosos.
No dia da eleição, o imperador declara na TV que seu principal rival está legalmente desqualificado para a disputa: uma mentira que o comissário eleitoral é obrigado a corrigir mais tarde. O transporte público é retirado de partes de Liliput conhecidas por serem hostis ao imperador e uma série de explosões de manhã bem cedo impede alguns de chegar aos lugares de votação. Dois dias depois da vitória do imperador, o comitê central de campanha de seu principal rival é invadido por comandos armados sem qualquer mandato de busca, computadores e arquivos são levados e cabos eleitorais presos. O imperador alega que eles estavam planejando um golpe, embora computadores e gabinetes com arquivos sejam maus substitutos para armas e lançadores de foguetes. Um porta-voz da oposição reclama que o motivo era impedir a coleta de evidências que prova que a contagem da eleição foi manipulada. Mais medidas enérgicas contra jornalistas e críticos começa...
Gulliver rompeu com seu imperador depois de tê-lo ajudado a ganhar a guerra contra seu vizinho. Ele teve que fugir de Liliput por temer ser executado. Ironicamente, na sua Liliput, o mesmo destino espera o rival mal-sucedido do imperador.
Como você se sente? O que você pode fazer? O que você gostaria que seus amigos e outros governos fizessem? Se a eleição foi ou não manipulada não está claro e pode ser impossível prová-lo. Mas as múltiplas violações às salvaguardas constitucionais e às leis eleitorais são óbvias. Elas são claras o suficiente para que esta eleição seja declarada nula ou inválida. Caso contrário, a mensagem que será enviada a toda Liliput é: aquele que não respeita a lei, vence.
O fracasso da democracia em Liliput é muito mais do que isso: é a perda do respeito pelo Estado de direito, que é mais fundamental que a democracia. Na verdade, a democracia só pode florescer em sociedades onde haja ao menos duas coisas. Primeiro, cidadãos com acesso à informação. Onde os meios de comunicação são severamente controlados pelo Estado e outras vozes suprimidas, os cidadãos (especialmente a maioria pobre) são privados do direito de ser adequadamente informados do que está acontecendo na nação e das escolhas diante deles. Analfabetismo, ignorância e desinformação mal-intencionada mina a democracia.
Mas, em segundo, e mais importante, a democracia assume que a maioria dos cidadãos estima a liberdade: liberdade de pensamento, de religião e de expressão. E mais, que a maioria dos cidadãos tem uma perspectiva moral e estão dispostos a resistir à tirania mesmo quando isso lhes custe. Os ditadores só podem ter êxito quando têm milhões de homens e mulheres que dizem sim a seus intentos. Alguns destes são burocratas ou profissionais bem pagos (tais como aqueles que constroem websites e campanhas de marketing). Escolas e instituições religiosas, mesmo universidades, promovem conformismo e passividade antes que conversas sobre liberdade, justiça e verdade.
Não é uma ilusão pensar que nós podemos ter uma sociedade democrática puramente baseada em leis e "procedimentos", sem prestar qualquer atenção à formação moral dos cidadãos? O tipo de pessoas que somos — e nos tornamos — conforma o tipo de sociedade que temos (embora também seja verdade que o tipo de sociedade em que vivemos conforma o que nós nos tornamos). Honestidade e integridade são pressupostos da vida pública, não seu produto. As partes de um acordo já devem ter noção do que é certo e uma boa vontade para acatá-lo, mesmo quando é seu interesse não fazê-lo. Um contrato não é de modo algum um contrato se é mantido apenas quando é conveniente fazê-lo. Ademais, se representantes eleitos, e funcionários, não podem ser confiáveis de velarem por nossos interesses, a fé na democracia definhará.
Este é também um profundo desafio para as democracias liberais ocidentais. Versões do liberalismo político que mantém qualquer moralidade como uma questão puramente privada — que não deve ser ensinada através da educação pública — são vulneráveis não somente por serem culpados de incoerência mas também pelos desafios de uma população de egoístas cada vez maior que não se preocupa com o bem-estar de ninguém a não ser o seu próprio.
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/01/31/lilliputian-democracy/
(Tradução de Flávio Conrado)
14/4/2010 02:38:24 Comentários (0)
Quem sou eu?
Numa viagem de trem na Dinamarca, minha esposa puxou conversa com nosso vizinho enquanto eu me escondia, como de costume, atrás de uma revista. Sabendo que vivíamos no Sri Lanka, ele se dirigiu a mim e perguntou: “Então, você é cingalês ou tâmil?”. Eu hesitei e respondi: “Tâmil”. “Não pode ser”, ele replicou, “tâmeis são de pele escura”
Estereótipos são intransigentes. Eu retornarei à minha hesitação mais tarde.
A maioria dos europeus, a menos que circulem em círculos acadêmicos, não podem compreender a total complexidade das sociedades asiáticas, suas histórias e suas questões políticas. É fácil contentar-se com as frases de efeito da mídia. De modo que eu estava impressionado pelo conhecimento de nosso companheiro. Na Grã-Bretanha, é costume agrupar todos aqueles do subcontinente indiano sob a categoria “asiático”, de variada utilidade, enquanto que nos Estados Unidos este termo designa (até bem recentemente) coreanos, japoneses e chineses. No entanto, eventos desde 11 de setembro têm forçado algumas pessoas a libertarem-se de visões anglo/eurocêntricas dos outros povos e ler realmente as histórias deles a fim de entender as suas.
Desde que a Guerra civil no Sri Lanka chamou a atenção da mídia global em julho de 1983, tem sido regularmente descrita como um “conflito étnico”, e até, às vezes, como um “conflito religioso” (já que a maioria do grupo étnico conhecido como cingalês é budista e a maioria da minoria tâmil é hindu). Mas nas sociedades complexas da Ásia, os conflitos são raramente assim tão simples.
Tâmil é, primeiramente, uma língua; uma das mais antigas no mundo. Há três comunidades que falam tâmil no Sri Lanka: os “tâmeis srilanqueses”, vivendo predominantemente (mas não exclusivamente) no norte da ilha, que afirmam a realidade histórica de que eles não são menos “filhos da terra” que seus concidadãos de fala cingalesa (um reino independente no norte existiu ininterruptamente desde 1215 por cerca de 400 anos); os “tâmeis do interior” que foram trazidos como trabalhadores contratados no final do século XIX e início do XX pelo governo colonial britânico para trabalhar nas plantações de chá e borracha; e os “tâmeis muçulmanos” de descendência malaia ou moura (constituindo 10% da população) que afirma sua identidade religiosa distinta enquanto fala o mesmo idioma que os outros povos tâmeis.
Apenas o primeiro grupo dos que falam tâmil, e de novo não todos eles, abraçam a demanda por um estado tâmil separado no norte da ilha. O movimento por um estado separado se tornou mais popular e mais violento depois do pogrom anti-tâmil no sul em julho de 1983. Na década seguinte, ele se dividiu em várias facções lutando entre si sobre a questão da estratégia, assim como em torno de diferenças profundamente arraigadas baseadas na casta, região e personalidades. Os Tigres Tâmeis emergiram como os mais poderosos e renomados internacionalmente entre as várias facções de militantes tâmeis. Eles rapidamente e implacavelmente afirmaram sua supremacia sobre todos os outros grupos. Eles aperfeiçoaram a arte de atentados suicidas e assassinaram várias figuras públicas tâmeis que ousavam questionar seus métodos ou agenda política.
É pouco provável que os srilanqueses de fala cingalesa tenham pensado de si mesmos como cingaleses-budistas até o começo da era colonial. O último rei do reino “cingalês” em Kandy era um tâmil, e os conflitos mais encarniçados naquele reino foram baseados mais na casta e lealdades dinásticas do que sobre diferenças “religiosas” ou “étnicas”. Hoje, entre muitos cingaleses de classe média, o “homem santo” indiano e “milagreiro” Sai Baba goza de uma popularidade que excede de longe a do Buda. Políticos, líderes de negócio e oficiais do Exército fazem viagens regulares a seu ashram em Bangalore, porque Sai Baba lhes dá o que eles querem – religião sem arrependimento, poder sem moralidade.
O entendimento bíblico de pecado nos dá percepções profundas sobre a natureza do conflito humano. Fazemos de nós mesmos e de nossos desejos o centro das coisas. Capturados em aspirações à divindade, vemos os outros como competidores a serem suprimidos, ou simplesmente como meios para promover nossos próprios objetivos, ou como ameaças ao nosso bem estar. Temos uma propensão inata para defender e promover nossos próprios interesses. Consequentemente, temos a tendência a falar das injustiças que sofremos nas mãos dos outros mas muito raramente das injustiças que fizemos com os outros. Este distanciamento passa a existir frequentemente dentro de nós, de modo que nos tornamos estrangeiros para nós mesmos, sem entender nossas motivações e sentimentos, e muito menos os verdadeiros objetivos pelos quais existimos.
No context srilanquês, muitos intelectuais cingaleses continuam culpando os poderes coloniais europeus, o Banco Mundial e/ou Fundo Monetário Internacional ou ainda o “nacionalismo tâmil” pelo sofrimento da nação; raramente culpam sua própria incapacidade administrativa ou a falta de uma visão pluralista para a sociedade srilanquesa. A vociferante diáspora tâmil no Ocidente, incluindo muitos intelectuais, tem se mantido calada sobre a maneira vergonhosa como os muçulmanos foram tratados pelos Tigres ou o enorme sofrimento dos camponeses cingaleses pobres do Sul e dos agricultores tâmeis. Discussões sobre as terríveis práticas discriminatórias dentro das comunidades são sempre suprimidas.
Por que eu hesitei responder à pergunta do meu companheiro de viagem? Meus ancestrais são tâmil de ambos os lados, mas eu cresci falando inglês como minha primeira língua. Eu leio e entendo tâmil muito bem mas como há uma enorme distância entre o tâmil escrito e falado, eu falo cingalês melhor que tâmil. Há muitas anomalias como eu no meu entorno, aqui e no exterior: pessoas que vivem nas fronteiras, não estando “em casa” em nenhuma cultura. Onde nos encaixamos nas classificações de “povos” (peoples-group) que alguns missiólogos (normalmente americanos) estão promovendo? (uma razão, entre outras, para ser cuidadoso com tais metodologias).
Todos nós temos múltiplas identidades sobrepostas. Quais consideramos principais ou básicas, depende de como nós integramos as diferentes histórias nas quais nossos “eus” existem. Meu centro integrador é Cristo; o que faz da identidade cristã a minha identidade principal. Mas, como o termo também é tão incompreendido hoje, usá-lo publicamente expressa muito pouco. Então, quem sou eu? Eu acho que sei, mas não sou capaz de dizê-lo. Talvez eu só possa mostrá-lo.
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2009/04/24/who-am-i/
(Tradução de Flávio Conrado)
31/3/2010 04:19:45 Comentários (0)
Pode o capitalismo ser chamado de cristão?
O comentário de um leitor (1) sobre meu texto “Dinheiro e Moralidade” levanta uma questão importante que vai um pouco além do que ele pergunta. Gostaria de abordar isso. Trata-se de como não pensar em categorias “preto no branco” ou, nesse caso, “direita” ou “esquerda”. Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2009/04/10/is-capitalism-christian/ (Tradução de Patrick Timmer)
Como apontado pelo leitor mencionado, há muitos cristãos na América do Norte que, de forma acrítica, endossaram o capitalismo como sendo “cristão. Também há um número igual, ou talvez até maior, de pessoas na América do Sul que o denunciaram sem reservas como sendo um sistema “demoníaco”. Críticas mais balanceadas, tais como a do historiador econômico R. H. Tawney — ele mesmo um cristão comprometido —, em meados do século passado têm sido relativamente escassas. É evidente que o capitalismo, assim como o próprio cristianismo, tem significados diferentes para pessoas diferentes em contextos distintos. Também é necessário ir além de definições de livros didáticos e da mera teoria. Entender os contextos dentro dos quais vivemos e falamos parece ser algo inseparável do entendimento de como os negócios e as políticas econômicas funcionam.
Na medida em que o capitalismo estimula valores como a criatividade, a inovação, responsabilidade pessoal e a liberdade do peso excessivo do controle governamental, deve seguramente ser saudado pelos cristãos. A competição e o auto-interesse podem ter resultados benéficos para o mercado, ainda que não intencionais. Porém, como eu apontei em outro texto, isso pressupõe um amplo fundamento moral estabelecido que não é determinado pelos mercados. Além do fundamento moral (e, com ele, o Estado de Direito), economistas têm há tempos afirmado que a eficiência do mercado depende de certas condições, tais como “informação recíproca” e “competição perfeita”, e que onde estas estão faltando, os mercados falham.
No mundo real, em contraste com o mundo dos livros didáticos, essas condições raramente estão presentes. A propaganda manipula os desejos humanos de forma que os consumidores não são nunca soberanos; a oferta comumente não reflete a demanda, mas sim interesses de grupos específicos; e, no comércio internacional, as nações ricas usam sua força política para distorcer os mercados e assegurar favores para as suas indústrias. Líderes de negócios que são extremamente ruidosos acerca do “governo mínimo” quando seus lucros estão em escalada, são também os primeiros a correr para os seus governos atrás de socorro quando a competição lhes golpeia com força. O jogo não está nunca nivelado. Aqueles que entram no mercado com poder saem dele com mais poder ainda.
Ademais, onde o capitalismo encoraja uma visão de direitos de propriedade absoluta, ou um enfoque instrumental da natureza, e ainda mais dos seres humanos (como a redução do mundo natural a “recursos naturais”, e igualmente dos seres humanos a “recursos humanos"), deve seguramente ser resistido pelos cristãos. Assim também quando o ideário do mercado avança sobre áreas que nutrem as fontes morais compensadoras de uma cultura, tais como famílias, comunidades religiosas e escolas. Isso é o que vem acontecendo nas últimas décadas, e disto, então, surgem crescentes sentimentos “anti-globalização” ao redor do mundo. O capitalismo gerou uma cultura global de consumismo com a qual agora é identificado.
Desde a Segunda Guerra Mundial, muitos dos assim chamados países capitalistas se tornaram economias “mistas”. O Estado de bem-estar social do pós-guerra foi inspirado pelo Cristianismo (foi o arcebispo William Temple que cunhou pela primeira vez o termo “Estado de bem-estar social”, nos ido de 1927). As reformas humanitárias do final do século dezenove e o Estado de bem-estar social pós-guerra na Europa, o crescimento de sindicatos, a ampliação do direito ao voto, e a responsabilidade e transparência democráticas — tudo isso conduziu a um “pacto social” entre governos e mercados em países os mais diversos como Alemanha e Japão. Variedades de capitalismo se desenvolveram no Leste Asiático. Coréia do Sul, Singapura e Taiwan assistiram a um forte desenvolvimento econômico, liderados
por seus governos, desenvolvimento este que incluía investimentos governamentais em educação, moradia e saúde pública. O capitalismo de Estado chinês é controlado por um regime autocrático, e sua trajetória foi coberta de políticas truculentas que espalharam miséria ao redor do país ao longo de várias gerações.
Desde a era Reagan-Thatcher, as condições da globalização econômica encorajaram o florescimento das piores formas de capitalismo ao redor do mundo. Para ser mais preciso: oscilações financeiras especulativas que não estão relacionadas com a produção nem com o comércio; precarização do trabalho em indústrias e companhias que “atribuem à causas externas” o dano que causam ao meio-ambiente; fusões e aquisições que formam oligopólios e que excluem pequenos comerciantes do mercado; pequenos agricultores são expurgados do campo pelos gigantes do agrobusiness; utilização massiva dos diferenciais salariais em companhias tipicamente norte-americanas, e práticas empresariais que sacrificam os trabalhadores em prol de lucros maiores.
Quem, então, fala em favor do “capitalismo’ hoje? E a qual capitalismo eles se referem?
O clássico e polêmico livro Equality, de R.H. Tawney, publicado pela primeira vez em 1931, ainda é altamente relevante hoje. Dois economistas cristãos contemporâneos, cujas obras vale a pena ler, são Bob Goudzwaard (Capitalism and Progress, 1979), e Herman Daly. Ambos questionam pressupostos econômicos básicos. Em seu artigo “Uneconomic Growth and Globalization in a Full World” (Crescimento Não-econômico e Globalização em um Mundo Pleno), Herman Daly argumenta que nós devíamos pensar o sistema econômico como um subconjunto da economia de Deus (ou seja, a economia da Terra). Mais disso em uma próxima ocasião.
Nota
(1) Kevin Hargaden: Vinoth, simplesmente adorei esse texto e vou guardar essas citações do Peterson e do Keynes para pregações futuras. Frequentemente tenho conversas com membros da minha congregação que são homens de negócio e eles traçam um argumento parecido ao seu — que o capitalismo requer um fundamento moral (que parece bastante com uma ética judaico-cristã). Mas eles, então, algumas vezes dão um passo adiante e dizem que, de certa forma, o capitalismo é um sistema cristão. Você teria alguma ideia ou conselhos sobre como lidar com este tipo de raciocínio?
18/3/2010 11:55:19 Comentários (0)
Quem é responsável?
Dois terremotos devastadores deixaram um rastro de destruição na América do Sul. O Haiti sofreu cerca de 230 mil mortes e 1,2 milhão perderam suas casas; mas o Chile saiu relativamente ileso em termos de vítimas humanas (algumas centenas) a despeito de experimentar um terremoto muito mais forte. O que explica esta enorme diferença? Alta densidade populacional e pobreza generalizada. As duas estão conectadas.
A pobreza do Haiti é, em grande parte, o resultado de décadas de governos ditatoriais pós-coloniais violentos que substituíram a exploração colonial. O país nunca teve infraestrutura que apenas instituições políticas podem criar. Depois do golpe de 2004, apoiado internacionalmente, uma importante força de pacificação da ONU foi levada para o país. A despeito de ser a agência de manutenção da lei de facto no país, não foi lhe dado um mandato para ajudar em programas de alívio da pobreza ou de desenvolvimento agrário.
Quanto ao cristianismo haitiano — tanto na sua expressão católico-romana quanto na protestante —, é altamente sincrético, quase pouco distinto da religião vodu tradicional. Ainda que engajada no bem-estar social, a Igreja desconectou-se do testemunho crítico na esfera política, seja por medo da repressão e represálias ou por conta de uma teologia pietista de retraimento da vida pública. (No seu sincretismo e quietismo, ela é pouco diferente de igrejas em muitas partes dos chamados mundos "desenvolvido" e "em desenvolvimento")
Mas as nações ricas também compartilham a responsabilidade pela situação difícil do Haiti. Em março de 2008, Stefan Gates da BBC foi ao Haiti, conhecido no mundo como a nação mais pobre do hemisfério ocidental (72.1% vivendo com menos de 2 dólares por dia e dois terços de sua força de trabalho de 3.6 milhões desempregada), se encontrou com moradores locais no Vale Artibonite. Ele contou como este vale costumava produzir quase o suficiente de arroz para alimentar a nação inteira, mas, nos anos 1980, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial exigiram que o Haiti abaixasse tarifas de importação em retorno a empréstimos. O Haiti foi logo inundado com alimento barato pesadamente subsidiado dos EUA. Um fazendeiro local reclamou: "Nós não podemos competir com arroz importado". A agricultura — uma das poucas fontes de emprego num país extremamente pobre — efetivamente quebrou. A produção de arroz reduziu-se à metade, e produtos importados quintuplicaram, fazendo do Haiti o quarto maior mercado de arroz dos EUA.
Depois do recente desastre, Peter Hallward comentou no jornal britânico The Guardian: "Desde o final dos anos 1970, o ataque neoliberal incansável sobre a economia agrária do Haiti forçou a ida de dezenas de milhares de pequenos agricultores para as superlotadas favelas urbanas...centenas de milhares de moradores de Port-au-Prince agora vivem em habitações informais extremamente precárias". Hallward cita Brian Concannon, o diretor do Instituto para Justiça e Democracia no Haiti: "Estas pessoas estão lá porque elas ou seus pais foram intencionalmente expulsos do interior do país por políticas de comércio e ajuda especificamente desenhadas para criar uma grande força de trabalho cativa e, portanto, explorável nas cidades; por definição, são pessoas que não seriam capazes de arcar com a construção de casas resistentes ao terremoto."
É humilhante ter de lembrar novamente sobre quantos de nós estão implicados nas tragédias que sobrevêm a estranhos — seja através da nossa apatia ou nossa cumplicidade com instituições globais que continuam a praticar dois padrões que estão inclinados para os ricos. Enquanto igrejas e agências de ajuda internacional estão agora tentando ajudar os haitianos a reconstruir suas vidas despedaçadas e casas destruídas, quem está dizendo ao FMI e ao Banco Mundial para pedir desculpas públicas e oferecer restituição? E porque isso é assim, enquanto levantamos dinheiro e oramos pelas vítimas de desastres naturais, fazemos tão pouco para educar nós mesmos e nossas igrejas sobre as histórias detrás de tal sofrimento?
Eu me lembro das palavras sempre citadas de Dom Helder Câmara, arcebispo de Recife: "Quando eu ajudo o pobre, as pessoas me chamam de santo. Quando pergunto porque elas são pobres, me chamam de comunista".
Publicado originalmente em http://vinothramachandra.wordpress.com/2010/03/14/who-is-responsible/
(Tradução de Flávio Conrado)

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