3/8/2010 03:10:50 Comentários (0)
Aprendendo com os Inimigos
Em algum momento durante nossa transição da Guerra Fria contra o comunismo a uma cruzada perpétua contra a ideia evasiva chamada “terror”, nossa compreensão popular sobre as palavras de Jesus — “Ame os seus inimigos” (Mt 5.44) — também mudou. Um mandamento que tinha sido escrito como ideia bem-intencionada de idealistas se tornou uma condenação um tanto cínica e farisaica de uma guerra que muitos americanos agora recusam ser sua. Assim, nós temos uma frase de pára-choque: “Quando Jesus disse ‘Ame seus inimigos’ ele provavelmente não quis dizer mate-os”. Suficientemente verdadeiro, mas como a antiga leitura desdenhosa das palavras de Jesus, este realismo cínico exige a pergunta: “O que um líder popular de um movimento popular na Palestina ocupada possivelmente queria dizer quando ele falou para as vítimas de violência direta e sistêmica que deveriam amar seus inimigos?
Num Ocidente cada vez mais pós-cristão, muitos têm decidido que preferem buscar seu caminho sem Jesus e outros fanáticos religiosos. Com tanta matança acontecendo em nome de Deus, eu posso entender essa decisão. Mas a igreja pode estar tendo uma real oportunidade aqui para usar sua vida no mundo para mostrar o que quer dizer ler Jesus como um estrategista — alguém que sabia como liderar um movimento subversivo cheio de esperança numa situação onde ele e seu povo não estavam no comando e não poderiam expulsar os romanos. Se vamos fazer isto, então, temos que amar nossos inimigos, pelo menos para aprender com eles. Afinal, a Al Qaeda sabe mais sobre imaginação estratégica que qualquer dos nossos seminários.
A hegemonia da cristandade tem paralisado nossa imaginação quando se trata de se mover das boas novas do bom reinado de Deus para viver a nova vida. Nós ouvimos as boas novas e estamos felizes. Mas quando tentamos organizar a nova vida, nos encontramos com discordâncias frustrantes e cansativas. Não podemos encontrar consenso sobre as melhores estratégias para reorganizar a sociedade e somos tentados a pensar que a principal coisa se colocando no nosso caminho é aquele grupo de outros cristãos que não subscreverão nosso plano.
Talvez o que nós mais necessitemos são algumas lições de nossos inimigos. Embora sua mensagem seja equivocada e perigosa, estou impressionado pela habilidade da Al Qaeda de mover as pessoas das notícias para uma nova vida. Os membros da Al Qaeda não sabem a distinção entre um crente e um seguidor. Aceitar a visão de mundo da Al Qaeda requer que as pessoas dêem suas vidas inteiras dia após dia, mesmo até a morte. Algumas vezes as notícias sobre Al Qaeda soam dramaticamente similares as que os romanos diziam sobre as primeiras comunidades cristãs.
Considere “liderança”: Osama bin Laden é claramente o líder espiritual e o cérebro estratégico da missão da Al Qaeda. Ele descreve o mundo de uma maneira que conecta pessoas comuns num movimento global. Mas tendo feito isto, ele não é necessário para a sobrevivência do movimento. A administração é descentralizada. Novos líderes são empoderados através do discipulado. Matar bin Laden ou qualquer outro líder reconhecido da Al Qaeda apenas convencerá ainda mais os fiéis de que a mensagem é verdadeira. Como Tertuliano disse dos cristãos no segundo século, “o sangue dos mártires é a semente da igreja”.
Esta autoridade descentralizada e centrada numa narrativa sobre o mundo requer um tipo diferente de estrutura organizacional. Você não precisa de um prédio, de funcionários contratados e de um plano estratégico para começar uma nova célula da Al Qaeda. Estes grupos subversivos de fiéis autênticos se reúnem porque o modo de ler o mundo da Al Qaeda faz sentido para suas vidas. Eles não querem estar sozinhos na sua luta contra poderes muito maiores; então, eles se reúnem com outros para compartilhar a sobrevivência no meio da pobreza e fortalecer uns aos outros a fim de encontrar maneiras de subverter o mundo como ele é. Ainda que haja, sem dúvida, negociações estratégicas sobre onde investir dinheiro ou como espalhar melhor a mensagem, a Al Qaeda não precisa de um plano geral para se expandir. Ela se espalha como a erva no campo enquanto as pessoas se reúnem em torno da sua visão.
Embora Al Qaeda seja profundamente desconfiada de tudo o que é ocidental, é importante observar como a organização usa a tecnologia. Colocando de modo simples, seus seguidores parecem ter a capacidade de usar a tecnologia sem deixar que a tecnologia os domine. Telefones celulares, Internet e aviões são todas ferramentas potenciais para eles. Mas elas não definem suas vidas, mesmo a dos membros mais ricos da Al Qaeda. Que bin Laden possa gravar vídeos e colocá-los na Internet sem revelar sua localização é uma prova disso. Me lembra de um fórum em que participei num monastério beneditino no qual o abade compartilhou suas preocupações sobre como a tecnologia pode assumir o controle de nossas vidas. Um convidado no auditório protestou: “Mas não podemos ficar na Idade das Trevas”. “Claro que não”, disse o abade, buscando embaixo de suas vestes de monge para tirar um telefone celular de seu bolso. “Mas podemos mostrar ao mundo como usar isto e ainda ouvir a Deus?”
Prestando atenção no modo como os membros da Al Qaeda usam a tecnologia ajuda-nos a compreender o modo como interagem com um mundo onde não estão no controle. Eles sabem que não podem tomar Washington ou Londres. Mas eles também sabem que não precisam fazê-lo. Entrando desapercebidamente pelas frestas, eles atacam e iludem, apenas para desaparecer antes que as armas tenham tido tempo de apontar suas miras sobre eles. Isto é, certamente, uma maneira vagarosa de vencer. Mas é também uma maneira que não pode ser erradicada. A única maneira de desmantelar a Al Qaeda de uma vez por todas é se livrar de todos que estão conectados com ela.
Deixe-me esclarecer: Eu não estou dizendo que se você não pode com eles, junte-se a eles. Al Qaeda é nossa inimiga. Mas Jesus disse que devemos amar nossos inimigos. Mesmo se este amor não os conquista para o nosso lado, o tipo de atenção que o amor demanda pode nos ajudar a aprender mesmo das pessoas que nos odeiam. Eles podem nos ensinar algo sobre como Deus está nos chamando para viver no mundo. Especialmente agora, quando nosso lugar social é tão longe do de Jesus, é bom ouvir cuidadosamente aqueles que vivem num contexto muito mais próximo daquele da Palestina do primeiro século.
Aqueles que dirigem as grandes instituições eclesiais na América estão dolorosamente conscientes que nós temos de encontrar um caminho melhor. Os pastores estão indo embora, congregações estão desaparecendo e as novas gerações se importam cada vez menos com a igreja convencional. Ao mesmo tempo, há um aumento no ativismo religioso nesse país. Os jovens estão famintos por comunidade, e muitos deles estão conectando-se às tradições antigas da igreja. Nas ruínas aparentes da Cristandade, um novo monasticismo está emergindo. O que é mais surpreendente, talvez, é que sua organização se parece mais com a da Al Qaeda que com qualquer modelo denominacional.
Na história da igreja, a renovação tem vindo quase sempre das margens. Raramente as instituições têm a imaginação para se verem transformadas. Mas aqueles que atuam desapercebidamente, seduzidos pelas notícias que os forçam para uma nova vida, podem fazer experiências com novas formas de fidelidade. Estas pequenas células nem sempre entendem mas elas podem se tornar lugares onde a igreja inteira pode aprender de novo a imaginação estratégica de Jesus. Quem sabe? Sozinho, o mandamento de Jesus de “amar os inimigos” pode ser suficiente para nos salvar.
Publicado originalmente em: http://collegevilleinstitute.org/Bearinglearning
(Tradução Flávio Conrado)
21/6/2010 23:03:51 Comentários (0)
Sr. Miyagi e Dorothy Day
No Dia Nacional de Oração de 2009, eu estava num talk show cristão no Meio-Oeste. Quando eles abriram as linhas telefônicas, uma mulher nos seus noventa anos ligou pra dizer como ela estava com o coração partido porque o presidente Obama não tinha mantido o culto de oração na Casa Branca. Ela passou toda sua vida orando pelo país e seus líderes. Com sua voz trêmula, ela chorava a morte da luz no cristianismo americano.
Pastores das denominações históricas, me parece, poderiam simpatizar com esta nonagenária. Cem anos atrás, nossos ancestrais predisseram que o século 20 seria o “século cristão”. A longa marcha da civilização e do progresso tinha nos trazido para um novo dia de possibilidades. Nunca tinha sido tão fácil ser um cristão e acreditar que se poderia transformar a sociedade no mundo que ela deveria ser. É improvável que líderes das igrejas históricas estejam tão confiantes hoje.
É difícil ser pastor nestes dias. Mas a igreja passou por tempos difíceis antes e a tradição sempre oferece sinais de esperança. A partir do século quarto, o monasticismo tem sido um dos caminhos pelos quais a igreja tem se lembrado quem ela é em tempos de transição. Como líderes eclesiais tem tido dificuldade para revisões, monges se moveram para as margens da sociedade para experimentar disciplinas espirituais para um novo tempo. A vitalidade deste movimento se encontrava na dependência mútua entre líderes eclesiais e comunidades monásticas. Porque eles sabiam que eram necessários uns aos outros, foram capazes de receber os dons que ambos tinham para oferecer.
Eu estou convencido de que o cristianismo ocidental vem conhecendo um novo movimento monástico durante os últimos 80 anos. Dos Trabalhadores Católicos na Nova Iorque do tempo da Depressão ao Movimento Bruderhof da Alemanha Nazista, ao trabalho de desenvolvimento comunitário cristão de John e Vera Mae Perkins, o Espírito tem se movido para as margens para criar comunidades de esperança no século 20. Estes sinais nos apontam para como a igreja pode se parecer depois do “século cristão”. Se prestarmos atenção a estes sinais, acredito que podemos aprender um novo modelo para a liderança cristã.
Enquanto trabalhava num artigo para o jornal O Trabalhador Católico, Dorothy Day foi interrompida por um jovem leitor do jornal. Ele perguntou por Day, a líder pública do movimento Trabalhador Católico, e foi dirigida para sua sala. Quando o visitante disse que tinha ido conhecer o movimento Trabalhador Católico, Day disse a ele, sem tirar os olhos do seu trabalho, que ele poderia pegar uma vassoura no andar de baixo e varrer a calçada; ela se juntaria a ele assim que terminasse. Desencorajado primeiramente, o rapaz fez como lhe foi pedido. Quando Day terminou seu artigo, desceu para varrer e conversar com ele.
Day expressa o estilo de liderança que tem emergido das novas comunidades monásticas. Como todos os líderes, ela levou tempo para articular cuidadosamente a visão de sua comunidade. Mas ela não supôs que proclamar ou escrever a visão era suficiente. A questão essencial era encontrar caminhos de encarnar as boas novas. Numa comunidade de acolhimento afetuoso, havia sempre algo para fazer. Vivendo juntas, as pessoas poderiam aprender uma nova maneira de viver.
Se há um líder-guru para pastores jovens que estão tentando encontrar seu caminho depois do “século cristão”, eu sugiro o Sr. Miyagi. Quem não se recorda do sensei de Karatê Kid ensinando Daniel os fundamentos das artes marciais através de tarefas cotidianas como encerar um carro e pintar uma cerca? "Encere a direita. Encere a esquerda. Não esqueça de respirar". Como Dorothy Day, Sr. Miyagi sabia que ele estava ensinando um estilo de vida. Poderiam apenas conversar, claro. Mas ele seria melhor compreendido na prática, vivido em relações e tarefas cotidianas.
A mudança do pastor-gerente para o pastor-sensei pode não ser fácil, mas para aqueles que tentam, há esperança. O cristianismo não está morrendo; está mudando de forma. Se nós tivermos olhos para ver, há ressurreição ao redor — e oportunidade para liderar, ainda que segurando uma vassoura ou uma esponja.
Publicado originalmente em http://www.faithandleadership.com/content/mr-miyagi-and-dorothy-day?page=0,0
(Tradução de Flávio Conrado)
14/4/2010 14:48:38 Comentários (0)
Oscar Romero e o ato radical de permanecer
Trinta anos atrás, Oscar Romero —arcebispo da Igreja Católica Romana em El Salvador— se tornou um mártir pelo amor à justiça. Embora ele tenha começado como um arcebispo conservador, contrário à teologia da libertação que era popular entre aqueles que buscavam ajudar os agricultores pobres em El Salvador, Oscar Romero experimentou uma conversão radical quando seu amigo, padre Rutílio Grande, foi assassinado como resultado de seu compromisso com a justiça social. Através de homilias semanais numa estação de rádio nacional, Romero defendeu o fim da repressão ao povo salvadorenho, tornando-se ele mesmo um inimigo do governo e dos militares. Por causa de seu testemunho profético, Romero se tornou alvo de assassinato. Enquanto ele estava dirigindo a missa no dia 24 de março de 1980, foi baleado e morto. “Um bispo morrerá”, disse Romero prevendo sua própria sorte, “mas a igreja de Deus — o povo — não será destruída”.
A tradição cristã relembra seus mártires não apenas porque fizeram o supremo sacrifício pela nossa fé, mas também porque eles têm algo a nos ensinar. Num tempo em que discutimos e ansiamos por mudança na qual possamos crer, uma lição que aprendemos com o testemunho de Romero é o poder radical da estabilidade ou da capacidade de permanecer fiel ao lugar onde se está (1).
Embora Romero seja agora lembrado como um líder do movimento popular salvadorenho, ele não chegou a essa posição por meio de ideias radicais ou opiniões políticas progressistas. Romero era um conservador — uma escolha segura para um arcebispo na época em que foi eleito. Mas ele era uma pessoa profundamente comprometida com Deus e com o povo que Deus tinha chamado para servi-lo. Servindo de modo sincero seu povo e lugar, Romero fincou raízes de amor que o levou à ação radical.
Não importa o que se diga em elogio à estabilidade que é uma das virtudes mais conservadoras por sua capacidade de preservar a tradição e fortalecer as coisas que permanecem, aqueles que têm praticado este tipo de fidelidade através dos tempos atestam o seu caráter revolucionário intrínseco. Permaneça e preste atenção — aprenda a confiar em Deus no lugar onde você está — e você terá assento na primeira fila na revolução que a tradição cristã chama conversão. A fidelidade ao lugar nos transforma junto com o próprio lugar onde nós estamos. Georges Chopiney, um beneditino francês do século XX, resumiu o poder revolucionário da fidelidade ao lugar neste diálogo (koan):
“Que vida! O que você está fazendo na sua crisálida?”, perguntou o irmão caracol, que estava alegremente arrastando sua concha pelos quatro cantos do mundo. “Eu estou pressionando minhas asas para sair”, replicou a borboleta noturna de sua crisálida. “Você nunca terá asas porque elas são um presente de Deus àqueles que conseguem ficar parados”. Como o irmão caracol, nossa cultura de hipermobilidade zomba da estratégia da fidelidade ao lugar, de mudar o mundo enraizando-nos na terra debaixo de nossos pés e em Deus que caminha entre nós. A ironia, claro, é que nosso progresso tecnológico arrasta a concha da natureza humana, proporcionando-nos meios mais complexos e complicados de permanecer como nós sempre temos feito. O século 20, que começou com incrível otimismo sobre o poder da não-violência e o potencial para a paz global manifesto no movimento de independência de Gandhi, finalizou com o maior número de mortos comparado a qualquer século antes dele e a ameaça do holocausto nuclear ao toque de um simples botão. Embora a queda do comunismo tenha sido celebrado por muitos como o “fim da história” — a vitória suprema da democracia e do livre mercado —, fomos aterrorizados pelos desertores do século 21 que explodiriam a si mesmos ao invés de aproveitar a busca da felicidade. O progresso não tem exorcizado todos os demônios de Caim. O sangue de Abel ainda clama da terra.
Mas com o sangue de Abel, há também o sangue dos mártires como Romero que nos convida a voltar à revolução original — a morte de Jesus na cruz. “Apenas se a semente cair na terra e morrer”, disse Jesus, “ela pode dar fruto”. A fidelidade ao lugar abre espaço na nossa auto-suficiência complacente com a insistência radical de que nós podemos, como a irmã borboleta, nascer de novo. Por mais danificado que possa estar, nosso mundo não tem sido abandonado, mas acolhido por um Deus que nos salva ao recusar deixar o lugar onde nós estamos — estando perto inclusive da nossa violência autoinfligida e sofrendo-a na cruz. Quando o povo de El Salvador celebra a paz e a comunidade cristã global se lembra de um de seus mártires, que nós possamos fincar raízes nos lugares onde nos encontramos, sempre atentos ao modo como ele nos chama para a conversão. Como povo que acredita que Deus vai ao nosso encontro onde estamos, sabemos que a mudança na qual podemos crer começa bem aqui.
Nota do tradutor:
(1) Em inglês, o autor usa o termo stability, traduzido em geral por estabilidade, que se refere a um dos votos tomados por monges beneditinos durante o processo de tornar-se monge: o compromisso de permanecer em determinado monastério por algum tempo ou até o fim da vida. Preferimos aqui o uso da expressão “fidelidade ao lugar” à estabilidade, embora o último termo já esteja em uso pelos beneditinos brasileiros.
Jonathan Wilson-Hartgrove acaba de lançar o livro The Wisdom of Stability: Rooting Faith in a Mobile Culture pela Paraclet Press.
Versão original publicada em http://newsweek.washingtonpost.com/onfaith/guestvoices/2010/03/oscar_romero_and_the_radical_act_of_staying_put.html
(Tradução de Flávio Conrado)
18/3/2010 02:32:20 Comentários (0)
Juntos na Arca: testemunho de uma comunidade intencional
Uma vez ouvi um pregador dizer que dentro da arca de Noé pode ter sido fedorento e tumultuado, mas as pessoas que estavam lá sabiam que era melhor estar a bordo.
A mesma coisa se estende à convivência na igreja. Viajar com outras pessoas não é sempre fácil mas a arca nos salva de morrer afogado. E ela faz mais do que isso — ela nos dá oportunidade para que aprendamos a conviver.
A nova comunidade monástica da qual minha família faz parte tem providenciado a oportunidade para que cristãos de diferentes tradições aprendam a conviver. Nosso grupo de batistas, pentecostais, metodistas, episcopais e católicos têm encontrado uma maneira de conviver como uma comunidade de cristãos que querem cuidar uns dos outros e de nossos vizinhos (temos feito isso permanecendo membros de nossas denominações).
No século XX, a maioria dos esforços ecumênicos foi direcionada a buscar líderes e professores para sentar e se por de acordo sobre declarações doutrinárias. Estes esforços fizeram alguns progressos, mas a reconciliação nas estruturas eclesiais foi vagarosa para chegar até os bancos das igrejas. O que nós descobrimos na comunidade intencional é que a convivência focada nos aspectos práticos da fé cristã pode nos unir dia a dia em caminhos que transcendem diferenças doutrinárias.
Isso não significa que a doutrina não importa. Todas aquelas questões pelas quais nossos antepassados mataram e morreram são importantes, mesmo se um pouco de distância pode nos ajudar a ver seu significado de uma forma diferente. E mesmo quando aceitamos aquelas questões, ainda temos nossos próprios desentendimentos. Nós não concordamos a respeito de como ler a Bíblia, a relação entre igreja e estado, ética sexual ou escatologia. Discutimos sobre estas coisas e não esperamos quaisquer soluções fáceis.
Continuaremos, enquanto isso, lavando os pratos uns dos outros. Nossa pequena comunidade está unida no compromisso com práticas como acolher estranhos, compartilhar recursos econômicos e perdoar uns aos outros. Temos desenvolvido o que eu gosto de chamar de doutrina da adoção. Seja qual for o significado da história da salvação para a igreja e para o mundo, estamos convencidos que Jesus morreu e ressuscitou para que pudéssemos ser adotados na família de Deus e ter tempo para conviver, mesmo quando discordamos. Enquanto o resto do mundo corre para provar que seus inimigos estão errados, Jesus tem nos dado o presente do tempo para esperar juntos, tolerando o outro na prática da vida em comunhão. Mesmo quando o povo que Deus acolheu “nos dá nos nervos”, estamos convencidos que ser membro nesta família é um presente.
Chamamos nossa comunidade de Casa Rutba por causa de um pequeno vilarejo no deserto oeste do Iraque. Durante a invasão americana do Iraque, minha esposa, Leah, e eu viajamos com Christian Peacemaker Teams (Equipes Cristãs de Ação pela Paz) à Bagdá, acreditando que aquela era a forma pela qual Jesus nos chamava para parar a guerra injusta que nosso país estava iniciando. Três dias depois que aviões americanos bombardearam um hospital infantil em Rutba, um carro no nosso comboio bateu num estilhaço na estrada fora da cidade e caiu num buraco. Iraquianos parados na beira da estrada colocaram nossos amigos ensanguentados nos seus carros e os levaram a um médico em Rutba. "Três dias atrás, seu país bombardeou nosso hospital", disse o médico, "mas nós vamos cuidar de vocês". Ele deu pontos nas suas cabeças e salvou suas vidas.
Para a nossa comunidade, aquela experiência se tornou uma estória do Bom Samaritano dos dias atuais. Um bom iraquiano — e um bom muçulmano — não apenas salvou as vidas dos nossos amigos; ele também nos mostrou como era o amor de Deus. Então, ademais do nosso foco na prática e na doutrina da adoção, sempre nos lembramos que nosso relacionamento com Deus depende de estranhos. Não podemos ser salvos apartados daquele que é estranho, mesmo o estranho que parece ser nosso inimigo. Tão grato quanto estejamos por essa pequena arca que nos mantém flutuando na tempestade que ruge sobre nós, não podemos esquecer que o Deus que nos convidou para entrar deixa a porta aberta. O estranho que chega não é só um exemplo de caridade que merece nossa simpatia. Ele é um companheiro de viagem. Quem sabe ele seja o único que pode nos mostrar como navegar nas águas diante de nós.
Serei o primeiro a admitir que o testemunho das novas comunidades monásticas é pequeno e imperfeito. Dez ou vinte pessoas optando por viver juntas em uma comunidade intencional é dificilmente um modelo para a vida congregacional. Mas se eu tenho aprendido algo de meus amigos beneditinos, é que a vida monástica, embora pequena e aparentemente insignificante, é uma vida vivida para a igreja e o mundo.
Eu tenho um amigo que quase desistiu não apenas do cristianismo mas da sua própria vida por causa do beco sem saída que ele encontrou nas correntes convencionais do cristianismo moderno fragmentado. Criado por missionários conservadores na África, meu amigo sabia que algo estava errado quando ele se sentiu atraído por outros garotos. Como universitário numa faculdade evangélica, ele passou por programas e pediu oração para ser liberto de sua homossexualidade. Mas nada funcionou. Ele era gay e sabia que isso significava que não era bem-vindo na igreja na qual fora criado. Como muitos outros nessa situação, ele deixou a igreja para trás e começou a viver sua vida na comunidade gay. Isto foi confortável por um tempo. Ele encontrou gays cristãos que eram membros de igrejas afirmativas. Mas meu amigo disse que não pode encontrar alguém que fosse capaz de explicá-lo porque ainda sentia sua vida sem significado.
Quase por acidente, ele encontrou casualmente uma comunidade cristã onde havia pessoas cuja fé parecia diferente. Eles estavam tentando viver suas vidas pelo Sermão do Monte. Serviam lado a lado com os pobres e tentavam amar uns aos outros. Adoravam a Deus com entusiasmo mas sua adoração não era apenas no culto de domingo pela manhã. Eram suas vidas inteiras em comunhão.
Talvez esta fosse a resposta, meu amigo pensou. Talvez este tipo de vida comunitária, vivendo da maneira que Jesus ensinou, era para onde ele deveria seguir. A vida comunitária era convincente, mas ele estava cauteloso: O que eles iriam pensar sobre sua homossexualidade? Pedindo um encontro privado, ele colocou a questão para o líder na comunidade. O líder respondeu: "Eu não sei o que tudo isso significará para nossa jornada comum mas eu vou dizer uma coisa: Você é um presente e nós queremos receber você assim."
Vinte anos depois, meu amigo é um líder na mesma pequena comunidade. Ele diz que Deus e as pessoas de lá salvaram sua vida. Claro, a sua é apenas uma vida no contexto de uma pequena comunidade. Sua história não representa uma resposta para a discussão sobre a homossexualidade que ameaça dividir ainda mais uma igreja já fragmentada. Mas sua vida e a comunidade que o cerca são, eu penso, um sinal de esperança, apontando para um novo tipo de cristianismo para o nosso tempo. Enquanto tantos de nós estamos tentando descobrir a postura correta sobre uma questão ética, um comunidade de pessoas imperfeitas teve a graça de receber outro irmão imperfeito como um presente. Fazendo assim, eles não apenas salvaram sua vida; eles salvaram as deles mesmos, se tornando um povo que brilha com a vida que é vida verdadeira.
O monasticismo tem sempre ajudado a igreja a se lembrar de sua verdadeira identidade em tempos de rápidas mudanças sociais. Nos séculos IV e V, os pais e mães do deserto buscaram um jeito de serem fiéis no Império Romano que acabara de se tornar "cristão". Quase em cada crise social importante desde então, o cristianismo tem dado origem a movimentos monásticos. Se há uma mensagem que o novo monasticismo tem para oferecer à igreja no nosso tempo, eu creio que são as boas novas que o cristianismo como um estilo de vida promete novas possibilidades aos debates fatigantes entre esquerda e direita. De fato, ele muda a questão.
Para o meu amigo, a questão real não era se a homossexualidade como um estilo de vida seria condenada ou acolhida. Este modo de colocar a questão centrou toda a identidade do meu amigo na sua homossexualidade. Não importa quanto os conservadores falem sobre "odiar o pecado e amar o pecador", ele não poderia deixar de sentir a condenação de seu estilo de vida como uma condenação dele mesmo. Por outro lado, não importa o quanto uma congregação afirmativa estivesse desejosa de acolher meu amigo como homossexual, ele ainda se sentiria travado com uma identidade que não o estava satisfazendo. Ele não seria criado para algo mais do que para "políticas de identidade"?
No centro do seu ser, meu amigo queria saber quem era e para o quê tinha sido criado. Ele foi salvo por uma pequena comunidade que lhe ofereceu uma nova identidade: ele é um presente de Deus cujo propósito integral na vida é servi-lo com ações de graças nos relacionamentos desordenados da vida comum. Eu oro por uma igreja que possa nos ajudar a entender o que significa receber nossas vidas como um presente e ser transformado pelo refinamento do fogo de outros a quem nós amamos como se eles fossem também presentes de Deus. Eu sou grato pelas pequenas comunidades que criam espaço para experimentar como isso pode se parecer no nosso tempo.
Publicado originalmente em http://christiancentury.org/article.lasso?id=7468
(Tradução de Flávio Conrado)
25/2/2010 01:54:46 Comentários (0)
Cultivar a comunidade é um trabalho prático
Comunidade está na moda. Agentes imobiliários oferecem casas para jovens norte-americanos promissores em “comunidades planejadas”. Estudantes universitários e jovens profissionais se conectam através das “comunidades virtuais” nas redes sociais e de alter egos no Second Life (1). Jardins comunitários, coletivos de arte comunitária e cafés comunitários têm se tornado marcas da vida urbana moderna. Madison Avenue (2) sabe disso. Um carro de quatro portas com uma placa de publicidade proclama: “Compre um Saturn...Junte-se à comunidade dos que têm Saturn” (3).
Num mundo fragmentado e em ritmo acelerado, sentimos intensamente a necessidade da comunidade. Mas eis o paradoxo da comunidade: aqueles entre nós que mais ansiamos por ela são os menos capazes de assumir os compromissos que tornam a comunidade possível. Sentimos necessidade da comunidade porque temos uma sensação de que algo está faltando — que perdemos algo essencial. Mas como as crianças que nunca tiveram pais, a falta que sentimos de modo tão forte nos faz ter medo, reticentes para comprometer-nos e incapazes de encontrar justamente aquilo que mais queremos.
No seu clássico sobre a comunidade cristã, Vida em Comunhão (4), Dietrich Bonhoeffer escreveu: Aquele que ama mais seu sonho de comunidade cristã que a própria comunidade cristã, se tornará o destruidor de cada comunidade cristã, não importa o quão honestas, sérias e sacrificiais sejam suas intenções”.
Para o realista insensível, isto explica porque tantas vezes a comunidade cristã tem sido como semente plantada em solo rochoso, florescendo por um momento apenas para desaparecer por falta de raízes. Comunidade como um ideal não parece durar. Mas Jesus não era um idealista; e a razão pela qual sua comunidade, iniciada há dois mil anos, tem resistido não está no trabalho dos cristãos para consertar o mundo e a si mesmos. A comunidade, que é o corpo de Cristo, é dom de Deus para um mundo que não pode se salvar. Eu não sei como superar o paradoxo da comunidade no nosso mundo pós-moderno, mas eu sei de uma coisa: pela graça de Deus, eu estou aprendendo a viver em comunidade com pessoas que são tão “quebradas” e necessitadas como o mundo ao nosso redor.
Nós temos um jardim na nossa comunidade, mas eu não entendo muito de jardinagem. De fazer compras num supermercado eu entendo. Vou até a loja com uma lista de coisas que preciso, encontro-as nas prateleiras, coloca-as no meu carrinho, pago no caixa e vou pra casa com comida. Este processo faz sentido pra mim. Mas jardinagem é estranho. Nós cavamos, adubamos, enterramos a semente e tudo o que temos ao final do dia é um monte de sujeira no quintal. Parece muito trabalho para nenhum retorno imediato.
Eu aprendi com o tempo que há sempre trabalho a ser feito no jardim — retirar ervas daninhas, regar, vigiar predadores, colocar estacas. Todo esse trabalho que fazemos é para que algo possa acontecer — crescimento. O que é incrível a respeito do jardim é que você está sempre trabalhando mas não há nada que se possa fazer para forçar o crescimento. No final das contas, cada jardim é um milagre. Ou seja, é um presente embrulhado em mistério.
A melhor metáfora que eu encontro para a comunidade é o jardim. De alguma maneira, há sempre trabalho a ser feito — louças pra lavar, encontros, orações a fazer, encontros, guerras para oferecer resistência, encontros, refeições para preparar... e mais encontros. Depois de ficar sentado em algumas centenas de encontros ouvindo as mesmas pessoas dizerem mais ou menos as mesmas coisas repetidamente, você é tentado a pensar: “Eu sei o que essa comunidade precisa. Se eles me escutassem, poderíamos seguir para coisas mais importantes”. Mas isso nunca funciona porque, como um jardim, você não pode fazer a comunidade crescer. Tudo o que você pode fazer é promover uma cultura de graça e verdade escutando cada voz, amando as pessoas que lhe frustram, falando a verdade da melhor maneira possível e lavar louças.
A grande tentação a respeito da comunidade é imaginar que é como uma oficina de carros ao invés de um jardim. Na oficina, carros estão quebrados e precisam ser consertados. Normalmente, carros andam bem por si próprios. Alias, é para isso que eles foram feitos. Se você vê um carro puxando outro numa estrada, eles provavelmente estão a caminho de uma oficina. Há pessoas lá que sabem muito ou pouco sobre carros. Elas descobrem o que está errado, pegam as peças que são necessárias, vão para debaixo da carroceria e consertam.
Não leva muito tempo para perceber que, na comunidade, as pessoas estão “quebradas” e necessitam de conserto. E no minuto que percebemos isto, é provável que pensemos: “Eu posso nomear o problema dessa pessoa melhor que ela pode. E eu conheço mais ou menos essa pessoa. Talvez eu possa ajudar a repará-la”. Nós fazemos isso porque nós a amamos, claro. E queremos vê-la melhorando. Queremos vê-la de novo na estrada, fazendo as coisas para as quais ela foi feita para fazer. O problema é que pessoas não são como carros. Nós não somos feitos para andar bem por nós mesmos. Nós fomos feitos para a comunidade.
Isso quer dizer que precisamos ser mais como um jardim do que uma oficina. Porque pessoas “quebradas” necessitam o que plantas doentes necessitam. Elas precisam de alguém para cultivar o solo ao redor delas, dar-lhes alguma atenção extra, retirar as ervas daninhas que ameaçam asfixiá-las e esperar. No final das contas, todos nós precisamos disso num momento ou outro. Mas a oficina não nos serve porque somos feitos para a vida num jardim. E o único caminho para fazer a vida crescer no jardim é manter raízes boas e profundas e esperar.
Assim como as comunidades são tentadas a se tornarem oficinas para as pessoas, nós também podemos nos enganar ao pensar que nós somos uma oficina para a sociedade. Afinal, não são apenas indivíduos que estão “quebrados”; a sociedade está “quebrada” também. Aqui, nós não temos apenas plantas doentes. Nosso problema é o solo ruim, poluído e abandonado por anos de abuso. Como os gurus da agricultura moderna que querem salvar o solo com pesticidas e fertilizantes, as comunidades podem se tornar cativas do ativismo. Podemos nos dedicar em realizar campanhas para abolir a pobreza, acabar com a fome, parar a guerra e promover reconciliação. Como os rapazes da oficina, podemos dizer: “Eu sei qual é o problema. Eu tenho alguns recursos e conhecimento. Talvez eu possa ajudar a consertá-lo”. Mas o mundo não precisa de um mecânico. O mundo precisa de um Salvador. Obrigado Deus, nós já temos um em Jesus Cristo.
Paulo escreveu à igreja de Corinto: “Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! (2 Co 5:17). Assim como Deus plantou um jardim no começo de Gênesis, há um novo jardim no mundo. Com Jesus, algo novo chegou. Nós não podemos consertar o solo ruim ou plantas feridas, mas as boas notícias é que nós não temos que fazer isso. A nova criação de Deus já rompeu com o nosso mundo fragmentado e moribundo. Nosso trabalho é cultivar a nova criação que já está aqui.
Nós aprendemos (e reaprendemos) como cultivar a nova criação de Deus na nossa comunidade quando nos reunimos nas noites de domingo para celebrar a Ceia do Senhor. Em silêncio, nos lembramos da semana que passou. Um membro confessa a falta de confiança que o tem feito ansioso. Outro confessa a ira. Tentamos falar a verdade a respeito de nossa fraqueza — como temos falhado em confiar em Jesus e machucado uns aos outros. Reconhecemos que comunidade é difícil. Não podemos experimentá-la pela nossa própria força.
Mas também lembramos, nas palavras de nossa liturgia, que “no nome de Jesus Cristo, somos perdoados”. Na história que Deus está escrevendo, nossas vidas fragmentadas têm sido colocadas de novo juntas pelo amor de Jesus. Santo Agostinho disse que “àquele a quem é precisamente dito para comer o corpo de Cristo e beber seu sangue foi incorporado na unidade do seu corpo”. Jesus deu a si mesmo como pão e vinho. Assim, compartilhamos a dádiva uns com os outros.
Nossa ceia semanal é um ato simples; frequentemente cheia de sons de crianças chorando, alarme de cozinha tocando e convidados batendo na porta. Mas eu penso que é onde nós recordamos que comunidade é cultivar a nova criação de Deus pela fé. O teólogo ortodoxo Alexander Schmemann escreveu que “oferecemos o pão em memória de Cristo porque sabemos que Cristo é vida, e toda comida, portanto, deve levar-nos a ele”. Esta refeição não é apenas ritual. Ela nos ajuda a reimaginar nossa vida inteira.
Assim, comemos uns com os outros, com nossos vizinhos, e com os estranhos que aparecem. Algumas vezes temos a sensação de que pudemos ter “acolhido anjos sem o saber” (Hb 13:2). E algumas vezes nós dizemos com o salmista: “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos” (23:5). Mas nós continuamos voltando para lá porque acreditamos que a prática de viver como comunidade nos abre para a vida com Deus. Continuamos porque temos visto o bastante para saber que este caminho nos leva para uma vida que durará para sempre.
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(1) Second Life é um ambiente virtual em terceira dimensão onde se simula aspectos da vida social que pode ser utilizado como jogo, rede social ou um simulador (Nota do tradutor).
(2) Madison Avenue é uma importante avenida de Manhattan, em Nova Iorque (Nota do tradutor).
(3) Saturn é um dos modelos mais populares de automóvel da GM nos EUA (Nota do tradutor).
(4) Bonhoeffer, Dietrich. Vida em Comunhão. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1997.
Este artigo foi previamente publicado na revista Prism de maio/junho de 2009. Acesse o http://www.esa-online.org/images/mmDocument/PRISM%20Archive/Features%202009/MayJun09LearningLifeLasts.pdf
(Tradução de Flávio Conrado)
18/1/2010 14:59:28 Comentários (0)
Liderança na economia de Deus
Quando eu era estudante no Eastern College, David Black tomou para si a tarefa de me ensinar o caminho de Jesus. Ele era reitor do Eastern, e não estava na sua descrição de cargo discipular um estudante, mas regularmente ele me encontrava para um café da manhã e me lembrava quase toda vez que Jesus era um “homem sem reputação” (Filipenses 2, 7) . Faça disso sua oração constante, ele dizia: “O que significa ser um homem sem reputação?” (1)
O que significa ser um homem sem reputação em um mundo obcecado por ela? Eu me faço essa pergunta ao refletir sobre como viver verdadeiramente a realidade alternativa do reino de Deus que nós pregadores estamos habituados a pregar com eloquencia. Nós gostamos de demonstrar visão. Infelizmente, nosso registro é irregular na hora da implementação. E um exemplo disso é o desafio de viver a economia de Deus no meio de uma crise econômica.
No evangelho de Marcos, Jesus ensina a seus discípulos como a economia de Deus se insere no mundo. Sua estratégia tem muito a nos ensinar sobre liderança, especialmente em tempos econômicos de incerteza.
“Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas,” Marcos relata, “mas os discípulos os repreendiam (Marcos 10:13). Aparentemente, parece estranho. Por que os discípulos teriam uma reação tão forte? As pessoas estavam sempre se aglomerando ao redor de Jesus, pedindo-o para serem abençoadas ou curadas. Por que os discípulos ficam irritados quando algumas pessoas normais trazem suas crianças para uma benção? Não é esse o tipo de coisa que pregadores e políticos supostamente fazem – apertar as mãos e beijar bebês?
Marcos nos dá um pouco do contexto desta cena no capítulo anterior, quando ele conta a história sobre a discussão que os discípulos tiveram na estrada para Cafarnaum. Jesus ouve por acaso eles resmungando e pergunta sobre o que estavam falando. Eles não quiseram contar – estavam envergonhados porque discutiam sobre quem era o maior entre eles. Eles estavam obcecados com o pressuposto de soma-zero de que se tornar o maior significa fazer alguém menor.
Numa economia de escassez, nós costumamos pensar em termos de competição. Mas em contraste a esta maneira de pensar, Jesus oferece esta estratégia para uma vida abundante: “Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos” (Marcos 9:35). Se você quer ser realmente grande, Jesus disse, não aspire se tornar o pai bem-sucedido de uma grande família. Se você quer realmente vida abundante, Jesus diz a seus discípulos, tente se tornar o menor na economia familiar/doméstica. Faça de você mesmo o servo de todos.
Marcos disse que Jesus chamou uma criança para permanecer ao seu lado enquanto ele estava ensinando isto. “Quem recebe uma destas crianças em meu nome, está me recebendo”, disse Jesus, “e quem me recebe, não está apenas me recebendo, mas também àquele que me enviou” (Marcos 9:37). Na antiga economia doméstica, as crianças eram indignas – muito jovens e fracas mesmo para serem tão valiosas quanto um escravo adulto. Na economia de Deus, Jesus disse, acolher o menor dos servos era o mesmo que acolher o Pai – o pater familias. Mas os discípulos não queriam nada disso. Arrastando Jesus para sua discussão sobre quem era o maior, eles diziam aos pais que pressionavam Jesus para pegar seus filhos e sumir.
“Quando Jesus viu isso, ficou indignado” (Marcos 10:14). Os discípulos não estavam simplesmente enxotando algumas crianças – estavam rejeitando publicamente a instrução que Jesus tinha acabado de dar a eles. Recursos eram limitados, os discípulos pensavam, e o tempo e energia de Jesus deveriam ser gastos apenas nos candidatos mais promissores.
Talvez os discípulos calculassem que quando Jesus disse “Sigam-me”, ele estava oferecendo acesso a seu círculo mais importante – como quando alguém que está terminando o Ensino Médio imagina um mundo inteiro de oportunidades quando recebe uma carta dizendo: “Nós temos o prazer de informar que você está sendo aceito na Universidade Harvard”. Tiago e João revelariam em breve, privadamente, seus verdadeiros desejos a Jesus, perguntando-lhe se eles poderiam ter os postos mais importantes na administração que estava por vir.
Mas Jesus disse, “Deixem vir a mim as crianças”, sua voz sem dúvida ainda indignada, “e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele" (Marcos 10:14-15). Frequentemente nós tiramos este verso do seu contexto. Em nosso tempo, crianças são idealizadas romanticamente. Mas isso não é o que Marcos está querendo dizer. Jesus replica na discussão sobre quem era o maior dizendo que o Reino estaria fechado para eles se não se tornassem fracos, servos desprezados, como as crianças na economia familiar.
Tão repulsivo como poderia parecer a jovens revolucionários, Jesus disse que eles não derrubariam o sistema desse mundo vencendo os governadores no seu próprio jogo. “Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas”, Jesus disse na conclusão desta troca com seus discípulos. “Não será assim entre vocês. Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos” (Marcos 10:42-44).
Nós não estabelecemos a nova economia de Deus tornando-nos um novo pater familias e administrando bem as coisas – libertando nossos escravos, repartindo trabalho e provendo para outros além da nossa família. Jesus não deseja consertar o sistema ou derrubá-lo. Ele submeteu-se às pessoas no serviço simples para nos mostrar um caminho melhor.
Jesus nos oferece esta estratégia: inaugurar um novo caminho submetendo-nos subversivamente aos outros na conturbada economia ao nosso redor. Expomos a mentira do sistema deste mundo rejeitando a importância que ela pretende ter e adora. Nós proclamamos a bondade do nosso Pai e sua economia quando nos deleitamos em ser seus filhos – totalmente dependentes de Deus e dos outros, o menor dos servos na grande economia da dádiva infindável de Deus. “Prefiro ficar à porta da casa do meu Deus”, canta o salmista, “a habitar nas tendas dos ímpios" (Salmos 84:10). Nós celebramos nossa abundância na economia de Deus – e ridicularizamos a falsa economia desse mundo – aspirando ser servos enquanto todo mundo está lutando para conseguir boa vida.
Eu estava me lembrando do verão na faculdade quando eu fui voluntário para ajudar na residência de estudantes. Subindo caixas pelas escadas pela 50ª. vez, eu me choquei com um homem de meia idade vestindo short e uma camisa suja. Ele estava respirando com muita dificuldade e soltou um grunhido. Eu olhei sobre as minhas caixas para me desculpar e vi o rosto do homem – era David Black.
Quando eu me pergunto o que significa ser um homem sem reputação, a imagem que me vem a mente é a do reitor da minha universidade carregando caixas em uma camisa surrada, encontrando novos estudantes como seu servo antes de ser apresentado como seu reitor.
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(1) A tradução de Filipenses utilizada pelo autor é a King James Version que utiliza a expressão “a man of no reputation” ao invés de “emptied himself” (esvaziou-se a si mesmo) encontrada nas versões para o português (nota do tradutor).
Versão original do texto em http://faithandleadership.com/content/leadership-gods-economy
(Tradução de Flávio Conrado)
14/12/2009 20:51:19 Comentários (0)
Novo monasticismo e a ressureição do cristianismo americano
Quase em todo lugar que eu vou nestes dias, as pessoas concordam comigo que algo está errado no Cristianismo americano. Seja falando para pentecostais ou presbiterianos, democratas ou republicanos, amigos muçulmanos ou vizinhos não-religiosos, parece haver um consenso: a igreja americana não está vivendo à altura do que ela afirma ser. De alguma maneira, nós perdemos nosso rumo.
Alguns cristãos ficam na defensiva quando outros chamam a atenção para a ironia na luta dos cruzados em nome do Príncipe da Paz ou pregadores anti-gays sendo pegos solicitando sexo com gays. Nós estamos um pouco envergonhados pelos relatórios que sugerem que mulheres que sofrem violência doméstica estão em maior risco se elas conversam com os seus pastores ou que as pessoas têm mais chance de serem racistas se elas são membros de uma igreja. Mas eu acho que talvez nós tenhamos alcançado um fio de luz no amanhecer de um novo milênio.
Muitos da minha geração cresceram com esta sensação de que nós estamos vivendo numa era pós-cristã. Mas confesso que não tenho essa sensação. Eu fui criado numa família de batistas do Sul, em King, Carolina do Norte, um daqueles últimos bastiões da cristandade entre os buracos cada vez maiores no Cinturão Bíblico. Nascido em 1980, me converti enquanto Reagan estava ainda na Casa Branca. Onde eu cresci, nós conversávamos sobre Jesus como se ele vivesse ali na próxima colina. Minha gente me ensinou a amar a Deus e memorizar as Escrituras e fiz como me disseram. Quando estava no ensino médio, tinha certeza que o Senhor havia me chamado para liderar a nação no nome de Jesus me tornando presidente dos Estados Unidos. Ainda como estudante do ensino médio, construí meu caminho para a capital trabalhando como assistente de Strom Thurmond, o então presidente pro tempore do Senado dos Estados Unidos.
Foi aí onde aprendi de primeira mão o quanto é difícil ser cristão na América. Um dia, quando estava caminhando indo almoçar, vi um homem agachado em frente à estação de metrô, segurando um copo de isopor. Ele me pediu algum trocado e eu o olhei sem dizer palavra alguma. Eu me lembrei o que tinha ouvido em King sobre como os pobres na cidade eram preguiçosos e esmolavam para comprar drogas e bebida alcoólica. Um garoto do interior na cidade, vestido na minha melhor roupa de domingo e fazendo de tudo que sabia para me encaixar. Não queria parecer ingênuo. Então, eu olhei pra frente e continuei caminhando.
Mas no momento em que eu estava parado olhando através daquelas portas de vidro da estação de metrô, relembrei um daqueles versículos memorizados na Escola Bíblica de Férias. Eram as palavras de Jesus soando na minha cabeça: “Em verdade vos digo, quando fizestes a um destes meu pequeninos irmãos, a mim o fizestes”(Mt 25:40). Eu sabia que se aquelas palavras eram verdade, eu tinha não apenas ignorado meu próximo; eu tinha também completamente falhado com o Senhor que eu estava tentando servir. Na minha pressa em seguir a Jesus na Casa Branca, eu quase tropecei nele fora da estação de metrô. Seguir a Jesus não era tão simples como perseguir meus sonhos.
Embora os sinais dos tempos sugerem que é difícil ser cristão na América, há também sinais de que Deus está fazendo algo novo em lugares que têm sido ignorados e abandonados pela nossa sociedade. Seguindo instavelmente a Jesus, eu encontrei meu caminho em algumas dessas comunidades e aprendi com elas a ler a Bíblia de um modo novo. A história do povo de Deus se torna mais interessante neste contexto, e eu comecei a ver como Deus tem se movido pelos séculos para relembrar a igreja de sua verdadeira identidade por meio dos movimentos monásticos. Monasticismo, eu aprendi, não quer dizer praticar algum tipo de piedade individual ou comunitária. Quer dizer ajudar a igreja a ser igreja.
No meio da loucura que submergiu a Alemanha nazista, o teólogo cristão Dietrich Bonhoeffer escreveu em uma carta ao seu irmão: “A restauração da igreja virá com certeza de um tipo de novo monasticismo que tem em comum com o antigo apenas a atitude intransigente de uma vida vivida de acordo com o Sermão do Monte no seguimento de Cristo”. Era a oração de um homem desesperado, que era também a oração para a qual uma comunidade chamada Bruderhof já estava se tornando a resposta. Liderada por Eberhard Arnold, este grupo tinha fugido de Berlim em 1920 dizendo: “Nós precisamos de fraternidade. Nós precisamos viver o Sermão do Monte de Jesus. Nós precisamos mostrar que uma vida de justiça, perdão e unidade é possível hoje”. No seu primeiro ano juntos, eles receberam cinco mil visitantes.
De Dorothy Day ao movimento Operário Católico e a Clarence Jordan e a Fazenda Koinonia, da Associação Cristã de Desenvolvimento de Comunidade a Jesus People USA em Chicago; este novo movimento monástico subterrâneo tem continuado até o presente neste lugar chamado América. E tem, em geral, sido ignorado por jornalistas e historiadores. Ele tem produzido, por exemplo, Habitat para a Humanidade e legislação nacional sobre habitação acessível; tem formado muitos dos mais criativos e promissores líderes do cristianismo. E agora, como quase todos reconhecem que é difícil ser cristão na América, o novo monasticismo está se espalhando como Kudzu, brotando como pequenos sinais de ressurreição durante o crepúsculo da cristandade.
Uma vez por mês, viajo a comunidades por todo o país onde jovens estão escolhendo não ser cínicos em relação ao desafio de encontrar uma vida de fé autêntica; antes, estão se oferecendo totalmente a uma vida integral em comunidade com outras pessoas. É lindo ver murais pintados sobre pichações feitas pelas gangues e jardim plantados em terrenos abandonados. Eu tenho prazer em ouvir histórias de casas que eram utilizadas para consumo de crack reivindicadas, comunidades redimidas, crianças acolhidas e ex-criminosos restaurados às suas comunidades.
Eu guardo as histórias destes poucos dias comigo o resto do mês enquanto vivo minha vida na Casa Rutba, uma nova comunidade monástica em Durham, Carolina do Norte. Nós temos nossos sinais de ressurreição também – e eu adoro contar estas histórias – mas, em casa, eu também sou consciente de quão difícil é amar uma pessoa, acreditar num lugar uma vida inteira. A revolução do amor a qual nós somos convidados não parece muito excitante quando um amigo alcoólatra te visita às 6h da manhã para dizer, mais uma vez, que não precisa da ajuda de ninguém, mas se ele poderia pegar uma carona ao centro da cidade.
Mas nós vivemos esta vida pela fé, confiando que a semente pode crescer e gerar nova vida se ela cai na terra e morre. Os profetas e monges que têm nos chamado de volta às nossas raízes geração após geração nos recorda que as raízes do Reino de Deus se espalham debaixo da superfície, efetuando mudança a partir de baixo. É uma revolução silenciosa – que é freqüentemente ignorada pelos jornais e esquecida pelos historiadores. Mas é, no final das contas, como Deus planeja salvar o mundo. Como aqueles rizomas, o Reino de Deus não irá embora. Como diz o livro de Daniel, “tornou-se uma grande montanha que encheu toda a terra”(2:35).
Na biografia de Dorothy Day, fundadora do Movimento Operário Católico, Robert Coles escreve sobre como Day entendeu que trabalhar na base era a “técnica de Cristo”. “Ela estava sempre, tanto quanto possível, levando Jesus a sério”, observa Coles. “Ela estava sempre tentando se lembrar que Ele era um carpinteiro obscuro, que aos trinta, não foi falar com os imperadores, reis e autoridades importantes mas com pessoas igualmente obscuras, e desse modo persuadiu alguns pescadores, alguns camponeses, alguns homens e mulheres aflitos e em dificuldades, que havia motivos para terem grande esperança”.
Há, de fato, motivo para ter grande esperança. Ainda que os sinais dos tempos digam que é difícil ser um cristão – ou crente de qualquer fé, pouco importa – nova vida está brotando por todo lado. Que nós possamos ter olhos para vê-la e graça para viver nela onde nós estamos.
Este artigo foi adaptado do livro New Monasticism: What It Has to Say to Today's Church (Brazos Press, 2008).
(Tradução de Flávio Conrado)

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