Dilemas Contemporâneos

23/8/2010 15:00:51 Comentários (0)

Tempos de Gurulândia

Tempos de Gurulândia

Em meio a uns passeios que mais gosto, que é o passeio por bancas de jornal, encontrei uma capa de revista que me chamou a atenção, aí, não resisti ao tema – “Em tempos de crise alguém pode nos salvar?”.

O editor foi visitar uma das inúmeras lojas desse estilo espalhadas pela Califórnia, e assim comentou: “São estabelecimentos curiosos, que se definem como centros de conexão com o sagrado, o místico, o metafísico e o espiritual. Lugares que de alguma maneira resumem o que a cultura americana melhor fez com quase tudo até hoje. Banalizar e mercantilizar qualquer coisa e, ao mesmo tempo, tornar tudo mais palatável, acessível e fácil de consumir. Ciências, técnicas, filosofias, saberes e algumas maluquices são separadas por temas em prateleiras, como em uma locadora de filmes. Nosso amigo compra um spray que promete espantar as más vibrações, um livro com trabalhos acadêmicos sobre as mais recentes descobertas relativas aos efeitos das substâncias lisérgicas sobre o cérebro humano, um manual de cabala e um pôster com o rosto do Guru Sai Baba sorrindo. O caixa, um senhor aparentando mais de 70 anos, pergunta sem tirar os olhos das teclas da máquina registradora: ‘Encontrou tudo o que buscava?’. [...] Sai Baba, Jesus, Yogananda, Gandhi, Dalai Lama e outros. É possível até adquirir ali espécies de ‘minipôsteres’ com os rostos dos supostos 108 gurus e mestres de maior relevo para a humanidade. Uma verdadeira gurulândia”.

E a partir daí acrescenta a proposta daquela edição: “Esta edição arrisca um olhar leve e desarmado para a impressionante obsessão que parece mover multidões no mundo inteiro, cada vez mais vorazmente, numa correria desabalada em busca de guias, mestres e gurus. Indivíduos que possam, através de seus saberes, poderes, rituais e conexões, diminuir a dor de viver e resolver a bagunça espiritual, física e ambiental em que conseguimos nos meter” (1).

No Brasil a nossa cultura cultiva uma certa gurulândia dentro de cada um de nós. Vale tudo! Um sincretismo religioso acentuado.

As matérias da revista são interessantes, mas, o que nos levou, como diz o editor, a essa “bagunça espiritual, física e ambiental em que conseguimos nos meter”?

Hoje é tudo tão alternativo, tudo tão relativo, e há uma valorização dessa suposta “liberdade” de escolha, incentivo a cada um encontrar a “sua verdade”, que seria estranho e mal visto você ainda afirmar que Jesus seria o caminho, a verdade e a vida.

Jesus era um radical e em nosso contexto os radicais não são bem-vindos.

Já naquela época havia uma razoável concorrência em termos de divindades. Muitos se diziam o “escolhido”, o “messias”, o “salvador da pátria”. E de lá pra cá, parece que tal concorrência apenas aumentou.

Será que já nos acostumamos tanto com isso que agora o melhor é celebrar o clima de liberou geral? Ou será que assumimos que somos o nosso próprio deus e podemos salvar a nós mesmos?

Claro, é preciso considerar as faces de Jesus hoje. Dialogar com outras religiões e com os não religiosos também. Lembrando das boas dicas que John Stott (2) comentou como sendo marcas de um verdadeiro diálogo: autenticidade, humildade e integridade.

Olhar para o discurso de Pedro, no pórtico de Salomão, me impressiona, dentre outras coisas, por sua ousadia e convicção. Ele diz que o povo estava olhando para o lugar errado e dando crédito a pessoas erradas (At 3.12ss), ele fala sobre negação, morte, a necessidade de arrependimento e conversão, sobre cada um se apartar da suas perversidades. E fala também sobre o Autor da vida, ressurreição, fé que vem por meio de Jesus, cancelamento de pecados e tempos de refrigério.

Com quem e o que ficamos? Num mundo de tantas vozes, incertezas, crises, falácias, quem pode realmente nos salvar? Onde ainda encontramos e ouvimos a respeito do que o apóstolo Pedro falava? Ainda vale?

Notas
(1) Paulo Lima, Revista Trip, julho de 2010.
(2) John Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Editora Ultimato.

15/7/2010 23:32:29 Comentários (1)

Ainda de olho na África do Sul

Ainda de olho na África do Sul


A Copa do Mundo, cenário mundial do espetáculo do futebol, teve pouco futebol artístico esse ano. Frustração para torcedores das maiores e mais tradicionais seleções campeãs, e que teve a inédita campeã Espanha. O Brasil, sede da Copa em 2014, precisa ainda permanecer com o olhar voltado para a África do Sul a fim de aprender com seus acertos e sucessos, apesar de um contexto nada favorável.

Para os cristãos, vale se perguntar que alcance tem nossa teologia? Refletir como olhamos para a África do Sul, o quanto nos envolvemos no avanço do Reino de Deus nesse país.

A Revista Piauí, do mês de abril, através da reportagem de Daniela Pinheiro, traz-nos os seguintes dados: “é um dos maiores exportadores de minérios do mundo. Tem um Produto Interno Bruto de 278 milhões de dólares (o estado de São Paulo é de 490 bilhões). Conta com uma população de 49 milhões de habitantes (São Paulo tem 41 milhões), dividida entre 80% de negros, 10% de brancos, e outro tanto de mestiços e asiáticos. A maioria da população é cristã, mas integrada por uma miríade de igrejas e designações protestantes e pentecostais, por vezes combinadas com religiões autóctones. Há três anos, a África do Sul superou o Brasil no índice de desigualdade social e se tornou o segundo pior no ranking mundial, atrás da Namíbia. O desemprego atinge 40% da população, mais que o dobro do registrado há duas décadas. Nas áreas rurais, 60% dos negros não têm ocupação. O número de pessoas que sobrevive com menos de 1 dólar por dia também duplicou nos últimos vinte anos. Um terço da população continua sem saber ler ou escrever. O índice de repetências aflige 70% das crianças negras. Com a maior epidemia de AIDS do planeta (5,8 milhões de contaminados) e índices de criminalidade assustadores, a expectativa de vida dos sul-africanos caiu de 63 para 49 anos na última década e meia”.

Os jornalistas, Fábio Zanini e Laura Capriglione, no jornal Folha de S.Paulo (27/06/10), informam: “um relatório publicado pela ONU em 2002, com dados de 50 países, confere à África do Sul o vergonhoso título de campeão mundial de estupros. Uma pesquisa patrocinada pelo próprio governo sul-africano mostrou que, em 2007, houve 75,6 estupros por grupo de 100 mil habitantes – cinco vezes o registrado na cidade de São Paulo. Nos 12 meses contados a partir de abril de 2008, foram mais de 70 mil queixas de crimes sexuais, aumento de 10,5% em relação ao período anterior. Calcula-se que sejam muito mais, pois é comum que as vítimas de estupro se recusem a prestar queixa. Segundo a organização não-governamental Pessoas contra o Abuso de Mulheres, apenas um em cada nove estupros na África do Sul é denunciado à polícia. Entre eles, apenas 7% terminam em condenação. Índices mais chocantes dão conta de um estupro a cada 30 segundos no país, ou 1,2 milhão de estupros por ano. [...] Rachel Jewkes e Naeema Abrahams, pesquisadoras do Grupo de Gênero e Saúde do Conselho de Pesquisa Médica, em Pretória, tentam explicar por que, afinal, esse tipo de violência tornou-se uma epidemia na África do Sul. Segundo elas, existe um caldo cultural permissivo – a polícia pouco prende, a justiça pouco age e a sociedade ainda desconfia que a vítima deu margem para ter sido estuprada. As pesquisadoras também relatam rastros de corrupção na polícia: ‘Quando, apesar de tudo, as denúncias são feitas, não é raro a polícia, em troca de uns trocados, ‘perder’ documentos e laudos que comprovam o crime’. Em Gauteng, Província onde ficam Johannesburgo e Pretória, somente 17,1% das queixas de estupro resultam em julgamento – e apenas 6% em condenação. A leniência oficial termina por desencorajar novas denúncias, num círculo vicioso de impunidades. [...] Qualquer turista em Johannesburgo se impressiona com as ameaçadoras placas fixadas na fachada das casas: invariavelmente, fala-se em ‘reação armada’. O assalto a residências está entre os principais medos na cidade, e em 90% dos casos os bandidos aproveitam para estuprar as moradoras, segundo a polícia local”.

No jornal Folha de S.Paulo, de 01 de julho, Laura Capriglione e Paula Cesarino Costa, relatam: “O centro de Johannesburgo figura nos guias como um dos locais mais perigosos para turistas: ‘À noite, não vá’, dizem todos. Sem o movimento do comércio, sem polícia, o centro fica entregue às quadrilhas de traficantes, ao submundo que se esconde nos mais de 45 edifícios abandonados, onde vivem cerca de 30 mil pessoas. [...] O bispo Paul Verryn, 58, responsável pela igreja, abriu as portas do templo em 2002, ao perceber que a tragédia humanitária no país vizinho virara sua vizinha. ‘São pessoas traumatizadas por todo tipo de violência – roubos, estupros, assassinatos – cometido pelos guma-guma [bandidos que fazem transbordo da fronteira, em troca de dinheiro]. São doentes, com turberculose, HIV, cólera. São miseráveis, apesar de haver entre eles médicos e engenheiros’. Há hoje na África do Sul cerca de 3 milhões de refugiados do Zimbábue, gente que fugiu da miséria, do caos da economia (98% de inflação por dia) e de perseguições e massacres promovidos pelo ditador Robert Mugabe, no poder há 30 anos. Sim, há algo pior do que ser um negro pobre na África do Sul, 17 anos após o fim do apartheid. É ser um negro miserável do Zimbábue na África do Sul. Em janeiro de 2008, a polícia fez uma blitz na Igreja Metodista Central, 350 refugiados foram detidos e liberados após um juiz considerar a prisão deles ‘tão irregular quanto seria a instalação de um campo de concentração’. Segundo Paul Verryn, o governo da África do Sul ‘não tem recursos para gastar com os refugiados’, e, por isso, não ajuda. Não há albergues públicos. Segundo as contas do religioso, 40 mil zimbabuanos já passaram por lá [sua igreja]. Muitos arrumaram empregos, melhoraram de situação. Voltaram para seu país. Os números variam, mas algo entre 300 e 1.000 homens, mulheres e crianças dessa África profunda ainda chegam por dia à rica Johannesburgo da Copa do Mundo. Invariavelmente o primeiro pouco é na igreja.” Ainda nessa reportagem uma mulher de 38 anos, refugiada na Igreja Metodista Central, segundo relato da ONG Médicos Sem Fronteiras, diz: “A vida ficou difícil quando eu fui estuprada. Mais tarde, o teste de HIV deu positivo”.

O que temos a dizer diante de uma mulher que acaba de fazer um comentário como esse logo acima? O que fazer? Benditos aqueles que abrem as portas da comunidade, que abrem os braços, os bolsos, abrem o coração para acolher essa gente. Por ser voz e vez por eles. Que oferecem uma teologia que cumpre a função de articular a mensagem de Deus nesse contexto de abusos e misérias. Que intercedem continuamente por esses excluídos e marginalizados.

Quantos mesmo num contexto horrendo, na simplicidade e inteireza da fé, ainda clamam por misericórdia divina. Como diz o teólogo latino, Ignácio Madera Vargas, esses são o sujeito que “continua invocando a Deus a partir da opressão sem misericórdia. Os pobres fazem teologia da linguagem comum. Um logos sobre Deus que se expressa em ‘Deus nos ampare’, ‘Faça-se a vontade de Deus!’, “Jesus, confio em ti’. Essas afirmações produzem o efeito significado, pois expressam uma confiança em Deus que rompe a lógica dos que necessitam algo da parte de Deus para poder confiar, para poder seguir, para poder resistir”. E quanto nossa fé e nossa vida se permite ser mãos misericordiosas de um Deus compassivo?

Que Deus abençoe Cape Town 2010 (Lausanne III). Que nosso olhar se amplie, que nosso coração se alargue, que nossa fé se mobilize, que nossa vida seja uma proclamação de um evangelho vivo para todas as pessoas e para as pessoas em seu todo.

30/4/2010 15:15:46 Comentários (0)

Novas gerações

Novas gerações

É interessante como se configuram as novas gerações. Mas, mais do que isso, é importante refletir como dialogar, dar atenção maior às características e novidades que elas apresentam. Um fenômeno recente é o que se tem chamado de “mammoni” (versão italiana), “kidults” (versão britânica), geração “Ni-Ni” (versão espanhola – “ni estudian ni trabajan”), e para nós brasileiros conhecida como “geração canguru”. Pesquisas mais recentes, como a do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mostram que um quarto dos jovens adultos brasileiros entre 25 e 34 anos ainda vive com os pais – tendência mundial. Ter comida, roupa lavada e outras regalias, além de um pouco mais de privacidade na casa dos pais, parecem ter modificado e acomodado mais os jovens, fazendo-os permanecer por aí, considerando sair apenas se for para casar, mas como estão casando cada vez mais tarde, acabam prolongando esse período e adiando a independência.

Será que a partir daí podemos considerar melhor o que querem nossos jovens? Há diferença para a geração de hoje entre 18 e 24 anos? Talvez seja importante ouvirmos um garoto que possa, de alguma forma, representar essa turma. Um nome tem feito muito sucesso, tem sido repetido inúmeras vezes, está na mídia o tempo todo, é razão da alegria de muitos e disputado por tantos – Neymar (que estreiou como jogador profissional de futebol em 07 de março de 2009 - no atual brilhante time do Santos).

Em entrevista recente, ao ser perguntado sobre qual seria seu sonho de consumo, ele disse que gostaria de “ter um carrão”, e ao ser retrucado pela jornalista dizendo que ele já teria um carro de R$ 140 mil, ele explicou: “Queria um Porsche amarelo e uma Ferrari vermelha na garagem”(1). Na continuidade, disse que ainda não tem título de eleitor e nem queria ter, mas o fará por obrigação legal. Ao ser questionado se sabia quem são os candidatos a presidente, confessou não saber. Mas, como comentou outro jornalista, Fernando de Barros e Silva, “há no país 37 milhões de jovens de 16 a 24 anos. Metade deles não estuda. Pergunte o que gostariam de ser ou de ter sido. Quanto deles responderiam ‘Neymar’?”(2).

Neymar vem de uma família evangélica, de classe média baixa, passou pela escola pública e pela igreja durante anos. Pensar essa geração é também considerar a formação que lhe foi oferecida.

A que evangelho tem sido exposta a parte da juventude que ouve e conhece um pouco da Bíblia? O que dizer da escola pública e a qualidade da educação fundamental no Brasil? Isso sem falar na mercadorização da educação superior.

O que lhes tem sido comunicado, ensinado? Eles têm sido alcançados e formados de que forma? O sociólogo Boaventura de Sousa Santos (3) sugere que precisamos enfrentar o novo com o novo, mesmo em meio à gestão de urgências, o que requer rever conceitos e lutar pela definição da crise.

O monge beneditino alemão, Anselm Grün (4), comenta que “o mal se expande na comunidade em estruturas injustas, em padrões de pensamento doentios, que determina a comunidade e aprisionam o indivíduo”.

David Tracy, teólogo católico norte-americano, disse haver três diferentes públicos da teologia: a sociedade, a academia e a igreja. Posteriormente outros autores acrescentaram também a economia e a mídia (5). Será que temos dialogado bem nessas áreas? Como nos pronunciamos (linguagens) e nos posicionamos (atitudes)? O teólogo metodista Clovis Pinto de Castro (6) pontuou sobre o mandato da igreja de viver não (somente) sua dimensão privada, mas sua dimensão pública (pastoral), orientada para os seres humanos em sua vida diária real, e não somente para os membros da igreja. Outro teólogo católico, o professor Hugo Assmann também já nos provocava a reflexão propondo uma “teologia da cidadania e solidariedade”(7).

Diante dos acontecimentos da semana, como é dada a reflexão bíblica dominical em comunidade? Como instigamos e estimulamos o Corpo de Cristo a pensar a fé no contexto em que vive e participar ativamente da história de salvação que Deus continua promovendo?

Tomemos como tema algo que está próximo da gente devido às manchetes dos noticiários: a economia em tempos de globalização. O filósofo francês, Luc Ferry, que já foi ministro da Educação de seu país e hoje preside o Conselho de Análise da Sociedade (constituído pelo Governo francês), traz preciosas contribuições a respeito. Esse Conselho tem o objetivo de pensar a sociedade e esclarecer as escolhas e decisões do governo no tocante aos efeitos sociais. E tal Conselho é composto por universitários, artistas, cientistas e representantes da sociedade civil. Será que nossos presidenciáveis já pensaram em algo parecido? Há que se considerar que houve avanços nos últimos anos com a criação de alguns Conselhos, como por exemplo, o CONJUVE (Conselho Nacional de Juventude).

Mas, voltando ao Ferry (8), ele apresentou um relatório a pedido do primeiro-ministro François Fillon, como resposta à missão de reflexão confiada por ele aos membros do Conselho de Análise da Sociedade. E nesse singelo ensaio/relatório ele expõe com clareza sua convicção de que a crise atual não é uma crise financeira, e sim uma crise econômica, o que, em certo sentido, é muito mais grave, mais profundo e implica respostas mais fundamentais. E não nos iludamos, a crise foi amenizada, mas não resolvida, aliás, pouco aprofundada. Nos assustamos, o alarme de incêndio soou, entretanto, a aparência de que tudo voltou ao lugar e pode ficar como era antes é perigosa. A Grécia mostra que há muito que fazer, e países como Espanha e Portugal gemem, sinalizando possíveis desastres futuros. E no contexto brasileiro, em ano de copa do mundo e eleições, como desafiamos a igreja, como contribuímos para aprofundar as questões em nossa sociedade? Então, como nossa teologia, ou melhor, como o evangelho – que cremos abranger integralmente o ser humano, se pronuncia a respeito de temas básicos e na formação da cidadania? Temos aberto espaços novos para tanto?

Se desejamos, esperançosamente, conhecer as novas gerações e ajudá-las a melhorarem o mundo em que vivemos como consequência da fé cristã que nutrimos, é fundamental estarmos mais atentos, ouvirmos melhor e estimularmos a reflexão, cuidando da formação.

Termino com as considerações do bispo e professor N. T. Wright: “A sólida doutrina judaico-cristã considera a ressurreição como parte da nova criação de Deus e valoriza o mundo presente e os nossos corpos atuais, estabelecendo uma continuidade entre o mundo presente e o futuro, de modo que o que fazemos no presente é visto, como algo de extrema importância. [...] A crença na ressurreição sempre vem acompanhada por uma forte visão de justiça de Deus. Essa crença não leva a uma tolerância passiva diante das injustiças do mundo, mas a uma firme determinação de lutar contra as injustiças”(9).

Notas
(1) Em entrevista a Débora Bergamasco, na coluna de Sonia Racy, no jornal O Estado de S.Paulo – 26/04/2010.
(2) Folha de S.Paulo – 28/04/2010.
(3) SANTOS, Boaventura de Sousa. A Universidade no Século XXI: Para uma Universidade Nova. Coimbra: Edições Almedina, 2008.
(4) GRÜN, Anselm. Redenção: seu significado em nossa vida. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
(5) Para saber mais vale à pena a leitura do capítulo sobre “teologia pública”, do teólogo suíço em terras brasileiras, Rudolf Von Sinner (pela Sinodal – “Confiança e Convivência”).
(6) CASTRO, Clovis Pinto de. Por uma fé cidadã: a dimensão pública da igreja. São Paulo: Loyola, 2000.
(7) ASSMANN, Hugo. Crítica à lógica da exclusão. São Paulo: Paulus, 1994.
(8) FERRY, Luc. Diante da Crise.
(9) WRIGHT, N. T. Surpreendido pela esperança. Viçosa, MG: Ultimato, 2009.

18/3/2010 12:55:15 Comentários (1)

Uma vida bonita

O que é uma vida bonita para você? Lendo o jornal, me deparei com a entrevista que Xinran Xue, 52 anos, a escritora chinesa mais crítica da política de seu país. Ela comentava: “De acordo com um relatório das Nações Unidas de 2002, cinco países tinham índices muito altos de suicídio, entre eles a China, onde é mais frequente entre as mulheres. Pelas minhas pesquisas isso não surpreende, porque nos anos 80 a maioria das chinesas não sabia a diferença entre a vida na cidade e a vida no campo. Quando migravam para o perímetro urbano nos anos 90, acordavam e passavam a sentir o choque cultural. Em uma das histórias do meu livro, uma mulher trabalhava em um pequeno restaurante. Sempre que o restaurante fazia uma festa de aniversário para uma menina, ela tentava se matar. Quando a entrevistei, essa mulher me perguntou: ‘Por que as meninas da cidade podem ter uma vida bonita, como os meninos? Por que minha filha não teve vida para viver?’ Ela a tinha matado e isso se tornou insuportável”.

Penso que a beleza da vida se compõe, entre outras coisas, na arte de se inquietar, de inconformar-se com uma vida sem dignidade. E a Bíblia, o evangelho de Cristo, a encarnação do Filho, nos ensinam muito a esse respeito.

A pergunta, então, seria: Que evangelho e/ou qual o alcance dele em nossos dias, já que a realidade da morte ainda parece predominar diante da vida? Qual nossa compreensão de Cristo e seus ensinos se nossa prática pouco interfere nos padrões injustos, sufocantes e promotores de morte que nos rodeiam? O quanto sequer atentamos para as notícias do cotidiano a ponto de nos levar a novos e frutíferos movimentos a favor da vida? Como diz Gustavo Gutiérrez: “A pobreza e suas sequelas são o grande desafio de nosso tempo. Pobreza que, em última instância, significa morte prematura e injusta, destruidora de pessoas, famílias e nações”. A radicalidade do evangelho nos faz repensar a beleza da vida.

E hoje, o que seria a vida bonita de uma mulher? Quanto nossa teologia abarca seriamente tal questão? Os conceitos têm mudado? Há interesse em se estudar e abrir espaços para tais temas?

Ao ler a escritora espanhola Rosa Montero, narrando o contexto de quase 100 anos atrás, me deparei com o fato que se mudarmos alguns poucos detalhes, poderia valer para a descrição de nossos dias atuais. Confiram: “O mundo era um lugar vertiginoso; a revolução tecnológica mudava a face da Terra como um vendaval de fogo. Em meio a toda essa mudança aparecera um novo tipo de mulher, a jovem ‘emancipada’, ‘liberada’, duas palavras da moda. Acabaram-se os corseletes, as anáguas até os tornozelos, os enchimentos; as moças cortavam o cabelo à la garçonne, exibiam as pernas, eram fortes e atléticas, jogavam tênis, dirigiam carros conversíveis, pilotavam perigosos teco-tecos. Eram os febris e maravilhosos anos 1920, os crispados e intensos anos 1930, tempos de renovação nos quais a sociedade pensava-se a si mesma, buscando novas formas de ser”.

As novas formas de ser buscadas mudaram efetivamente o quê? Remete-me à canção do Renato Russo: “Mudaram-se as estações, nada mudou...”. O que o filósofo francês Gilles Lipovetsky dizia em 1997 parece ainda, 13 anos mais tarde, uma realidade próxima: “As pressões igualitárias não porão fim às codificações sociais, aos estereótipos e às associações imaginárias e referentes à diferença dos sexos”. A profecia se cumpriu.

Até aonde permitimos que o evangelho nos transforme? A coerência pode contribuir para a beleza quando pensamos em missão. Permitamos que as perturbações cheguem avassaladoras e que as mudanças aconteçam a partir de nós.

7/2/2010 03:36:39 Comentários (0)

Essas mulheres de hoje

O que dizer desses dias, logo os primeiros de 2010, já repletos de tragédias, dentro e fora de nosso país? Tempo de tristezas, de compaixão, de reflexão, de mobilização.

E o que nos mostram a vida de algumas mulheres de nosso tempo em dias de dificuldades?

Perdemos uma missionária, uma evangelista brasileira que não via o Brasil como sua única paróquia. Zilda Arns morreu em missão, e como diz a reconhecida jornalista Eliane Cantanhêde, “ela morreu como viveu: chacoalhando em desconfortáveis jipes militares, aos 75 anos, numa guerra contra a pobreza, a sujeira, a ignorância. A favor da vida. Morreu para que tantos outros vivessem no pequeno Haiti, o mais miserável país da América Latina. Sua história e seus ideais se confundem com os de um ícone mundial, que foi Madre Tereza de Calcutá. Mas Zilda não era freira, não usava o hábito e dedicou sua vida à vida alheia, mantendo-se bonita, vaidosa, imensamente feminina. Não interpretou um papel. Era apenas ela mesma em ação. Zilda, definitivamente, não passou pela vida em vão”.

E como a vida e a morte de alguns nos fazem repensar a nossa, não?

A morte da Dra. Zilda nos convida a prestar maior atenção à vida e a agradecer por sua existência entre nós. Sua compreensão do evangelho, seu testemunho tem sido lembrado e celebrado em muitos cantos de nosso Brasil. O sociólogo André Ricardo de Souza, por exemplo, falou do trabalho dela na Pastoral da criança e disse que se trata da “entidade nacional que mais reúne voluntários, 260 mil pessoas, sendo 92% de mulheres e a absoluta maioria de pobres. Mas o feito que a coloca em posição destacada na história foi ter ensinado mães humildes a orientar mães semelhantes a como salvar e fortalecer seus filhos”.

Frei Betto, repercutiu, escrevendo sobre como ela “nos deixa, de herança, o exemplo de que é possível mudar o perfil de uma sociedade com ações comunitárias da sociedade civil, ainda que o poder público e a iniciativa privada permaneçam indiferentes ou adotem simulacros de responsabilidade social”.

A jornalista Barbara Gancia falou do contraste da vida de D. Zilda, pois, em tempos de brigas por espaços por aparecer, intrigas entre celebridades, instantes de fama sendo disputadíssimos, uns querendo aparecer mais do que outros em nosso mundo de espetáculos, não fosse a tragédia, a maioria de nós nem saberia que D. Zilda havia deixado suas férias sagradas, enquanto boa parte de nós desfrutávamos desse tempo, para ir servir lá no Haiti. Ela não era de perder oportunidades, sabia da urgência e da importância da obra.

Ruy Castro até comentou que “Dona Zilda, aos 75 anos, parecia tão ativa quanto na época em que começou a Pastoral da Criança em 1983 — talvez até mais, porque, em 2004, ajudara a fundar a Pastoral do Idoso”. O que nos remete a história bíblica de Calebe, toda sua fibra e disposição mesmo com a idade avançada: “Aqui estou hoje, com oitenta e cinco anos de idade. Ainda estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; tenho agora tanto vigor para ir à guerra como tinha naquela época.” (Js 14.10-11).

E como também disse o professor Fernando Altemeyer Junior: “Obrigado, querida e amada doutora Zilda. Por tua missão e por tua entrega. Grato por nos ensinar a ver milagres de Deus dentro das entranhas da dor. Grato por ver com teus olhos ressurreição onde todos só conseguem ver fatalidade. Grato por experimentar e gestar vida onde tudo revela dor”.

Gente assim me faz celebrar com maior força e alegria a história de salvação de Deus que continua a ser construída. Também me anima a prosseguir vivendo pela esperança viva em Cristo.

Atentar respeitosamente para as que se vão e as lições que ficam, mas também observar e celebrar a vida de outras entre nós. Então, o que dizer de Marina Silva ao olhar par sua vida, sua história, seu testemunho e dedicação? Como não se emocionar ao ver a reação natural do público do Fórum Social Mundial, aliás, que teve em sua maioria mulheres (59,3%), quando Marina foi chamada à frente — aplaudida em pé. Reconhecimento público e notório da vida de uma mulher que fala com seus atos, que evangeliza com sua própria vida. Uma mulher nascida no interior do Acre, negra, pobre, analfabeta até os 16 anos, que exercita sua capacidade e inteligência, inclusive esforçando-se para recuperar anos de atraso nos estudos devido às condições desfavoráveis, para não dizer total falta de condições.

Ela não só consegue seu diploma universitário e se especializa como continua desenvolvendo e servindo conscientização, faz um trabalho digno de respeito e admiração por tantos estudiosos e envolvidos na área ambiental e fora dela, e mesmo em meio a tanta sujeira do jogo e intrigas políticas, é reverenciada como senadora por seu trabalho e sua ética exemplar, e assim se vão anos de coerência. E ainda Marina não se cansa de proclamar que “uma das formas de amar a Deus e amor ao próximo é lutar por um mundo melhor”.

Mulheres que fazem história, que compreenderam a integralidade do evangelho e impactam tão positivamente a sociedade. Obrigada, Senhor, por essas mulheres de hoje.

14/12/2009 15:18:12 Comentários (2)

Quem somos em tempos estranhos?

Há uma estranheza no ar. Nem sempre a detectamos, pois, nos distraímos com acúmulos, pressões e pressa. Mas um desconforto se instala e nem sempre conseguimos nominá-lo.

Tudo tem mudado muito rápido. Nem conseguimos assimilar, quanto mais compreender os pressupostos lógicos. Então, somos engolidos e depois ficamos com sensações estranhas sem tanta explicação.

O que nosso tempo nos traz? Do que falam nossos dias? Quais as pautas que ocupam as manchetes? O que hoje é mais valorizado? Corremos atrás do quê?

Como diz a Paula Sibilia, em seu interessante livro O Show do Eu – a intimidade como espetáculo, “as relações entre verdade e mentira, ficção e realidade, essência e aparência, verdadeiro e falso – que nunca foram simples – também se complicaram”. E como lidamos, então com tais complicações?

Jesus sempre nos ajudou a refletir sobre nossa intimidade e o que somos quando sós. Também sempre recomendou oração e vigia, e seu estilo de vida era permeado por retiros, momentos de silêncio e diálogo com o Pai. Como aplicar tais ensinamentos em nosso contexto atual? Será que o evangelho nos torna ainda mais estranhos? Qual a força do evangelho e seu alcance em nosso cotidiano?

Achei curioso que recentemente o Twitter tenha mudado a famosa pergunta que representava a ideia inicial do site. O que antes era “O que você está fazendo?” mudou para “O que está acontecendo?”. Parece que o instante é mais precioso e atraente do que uma tarefa ou atividade que pode exigir uma demanda maior, mais tempo. Além do mais, enquanto você faz, há muito mais acontecendo. E o que acontece pode durar pouco, acontece e muitos estão por fora. Então, nada como proclamadores de plantão. É preciso estar “antenado”, máquinas em sintonia, sempre ligadas, não perder nada, o tempo é ouro, a informação é imprescindível (ainda que rasa), a velocidade aumenta. As pressões, via de regra, sempre nos provocam a responder à pergunta: como ser mais ágil? Mas, talvez outras sejam necessárias: o que há por trás da cortina? Como viver de modo saudável num contexto desse? O que é essencial em meio às urgências?

O teólogo alemão, Jürgen Moltmann, dizia que “precisamos de uma espiritualidade dotada de sentidos – ou seja, em uma forma bem figurativa, ao invés de fechar os olhos, temos de abri-los para orar. Uma Igreja desconectada do cotidiano não tem futuro, só passado”.

Estar de olhos abertos, atentos e o coração cheio da Palavra de Deus é um desafio, mais ainda, é o que pode nos ajudar a compreender com maior profundidade o que Cristo deseja nos ensinar para a vida de nossos dias, nos trazer mais saúde para hoje. Ele quer nos transformar, levemos, pois, nossa palavra à Palavra dele.

Descobrir-se em Jesus e ser por ele descoberto é a maior aventura, não tenha pressa, mas tenha coragem.
Bons dias, bons tempos.

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