Joanildo Burity

28/3/2010 02:12:30 Comentários (3)

Não há política sem conflito … nem temos ideia de quando deixará de ser assim

Não há política sem conflito … nem temos ideia de quando deixará de ser assim

Neste terceiro texto de nossa série, retomo dois aspectos do que escrevi antes: primeiro, que há uma notável expansão, em relação a nossas concepções tradicionais, do que é e de onde ocorre a política. E parte inseparável disso é a presença da política na religião, mesmo quando não se identifica com clareza alguma política da religião. Assim, tornou-se sempre possível, se soubermos olhar de uma certa maneira, identificar o liame entre os dois “domínios” (que, assim, deixam de ser coisas distintas), ao mesmo tempo em que há tensões entre a lógica da religião e a da política, tal como tradicionalmente definidas, que ora apontam para posições de manutenção, ora de questionamento ou de contestação da ordem existente. Ordem esta que já não se confunde com a sociedade como um todo, ou com o estado, mas designa dimensões macro e micro da vida social. Há ordens. E há diferentes relações entre “religião” e “política”.

Segundo, nas condições contemporâneas, tornou-se cada vez mais admitido, mesmo quando a contragosto, o caráter conflitivo dos assuntos políticos. A política suscita paixões, a política divide, a política exclui, reprime, explora, manipula. Isso não é novo. Há muito, e em quase todas as culturas existentes, desenvolveram-se representações negativas sobre a política, ou sobre as formas concretas como a autoridade é exercida em comunidades, organizações, grupos, movimentos e nações.

Gostaria de explorar neste texto dois pontos ligados a essa experiência da conflitividade da política que suscitam reflexão dos cristãos comprometidos com questões de justiça econômica e social. A compreensão desses pontos me parece fundamental para esclarecer as condições em que um testemunho e uma militância inspirados na fé cristã se dão no mundo de hoje.

No rastro do que já dissemos nos textos anteriores, deveria estar claro que a política vai além de suas expressões institucionalizadas: vai além dos partidos políticos, das eleições, da formação de governos e das instâncias executiva, legislativa e judiciária do que convencionamos chamar de estado. Por isso, talvez seja interessante encontrar uma outra palavra para dar conta desse “ir além” da política que, no entanto, designa o lugar da política, dando-lhe diferentes formas e conteúdos. Alguns pensadores políticos têm sugerido que, nessa linha, se distinga entre “a política” e “o político”. O que esta última forma aponta é para as condições em que tudo o que existe socialmente vêm a se constituir. Em outras palavras, o político é o nome da dimensão instituinte de todos os processos e relações sociais

E como se manifesta o político? Basicamente pela exposição do caráter contingente de toda estrutura social. Contingência que sinaliza para algumas condições de todo projeto, ao consolidar-se numa ordem: tudo o que é poderia ser diferente; tudo o que é só pode vir a ser a partir de decisões que excluem alternativas possíveis; tudo o que é procura encarnar os mais altos ideais ou pretensões de universalidade ao mesmo tempo que é apenas um ator/discurso falível, singular e incompleto.

Essa experiência da contingência, como marca do político, se dá fundamentalmente de duas maneiras: a) pela experiência de desestabilização que se produz quando as promessas que legitimaram o nascimento de uma nova ordem fracassam frente a obstáculos não-previstos, ou são traídas, ou revelam-se baseadas em mentiras, exclusões e violências; b) pela emergência de discursos de resistência, questionamento e/ou contestação da ordem vigente, em nome de injustiças cometidas contra certos grupos ou de imagens da sociedade ideal. Ordens vem e vão, emergem cheias de expectativas e promessas, mas nossa experiência mais elementar do mundo nos confirma que, cedo ou tarde, alguma coisa acontece para desacreditá-las e pô-las abaixo. Mais: os projetos que se tornam vencedores na história o fazem na grande maioria das vezes em aberto desafio ao que lhes precedeu, e assim, ao mesmo tempo em que “prometem o céu”, efetuam um corte na “carne” social: separam-se do que é dominante; contestam; resistem; por vezes, isso tem um cunho libertador; outras vezes manifesta-se como uma reafirmação da ordem ameaçada ou como uma volta a um tempo em que “tudo era diferente e melhor”.

Em outras palavras, quando procuramos compreender como as estruturas do mundo humano, social e histórico, surgem e funcionam, até caducarem ou morrerem “precocemente”, é do político que estamos falando. A política, se entendemos por isso um tipo específico de atividade que visa a distribuir ou alocar recursos; manter a ordem; administrar a justiça; fazer e aplicar leis; criar políticas (no plural: ações baseadas numa estratégia, num plano) — isso, a política, é apenas uma manifestação do político. Mas este vai além dos limites da política, multiplica os lugares onde haveria política, está onde quer que uma aspiração ou alguma forma de sofrimento se articula numa demanda para que o mundo seja de outro jeito.

Em suma, o conflito, o debate, o dissenso que são tão característicos da política — mesmo quando esta tenta coibi-lo, desautorizá-lo ou neutralizá-lo — são uma marca de todo processo de construção social e histórica. Política é conflitiva, divisiva, pela mesma razão pela qual é construtiva, associativa. Esta condição atravessa os diferentes discursos sobre a vida social, seculares e religiosos, de tal maneira que, independentemente do valor que atribuamos ao dissenso e ao conflito, por exemplo, em nome da harmonia, do amor, da amizade, da solidariedade, do consenso, da comunidade, estamos às voltas com ele o tempo inteiro.

Uma leitura superficial da Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamentos, permite observar isso com clareza — o que mostra que estamos para além de uma novidade moderna. O episódio de Jesus expulsando os comerciantes do Templo deixa claro como o amor mais altruístico e radical não se conteve frente à exploração econômica em nome de Deus que se praticava ali. As perseguições sofridas pelos cristãos ao longo da história, por confessarem a Cristo e/ou por tomarem posições firmes em nome de sua fé, reforçam este ponto. Assim, ao procurarmos as fontes e motivações para um compromisso concreto com a justiça em nosso tempo, faríamos bem em não confundir as coisas: “o político” só nos dá acesso a um novo momento por meio da experiência do conflito — seja ao sofrermos com o conflito, seja ao fincarmos pé, como um certo Lutero um dia, ante os muitos nomes do injusto e do imoral.


3/2/2010 16:56:01 Comentários (0)

Onde está a política?

As pessoas costumam localizar a política num determinado lugar da vida social. Aliás, essa representação comum da vida social como se fosse uma topografia em níveis, ou com territórios claramente definidos, também predominou no discurso das ciências humanas e sociais desde a segunda metade do século 19 até fins dos anos de 1960. Se a política está localizada, há lugares e práticas que não são políticas, e é preciso estabelecer os termos de relacionamento ou de comparação entre esse lugar da política e os outros. É preciso inclusive admitir que não seja possível ou desejável que outros lugares e práticas venham a se relacionar com a política. Assim é que, para já entrarmos no caso dos discursos religiosos sobre a política, se ouve que “religião não se mistura com política”, ou que a política tem a ver com a conquista e a manutenção do poder e que considerações de caráter religioso só trarão problemas, por não respeitarem a especificidade da política. Muito do que se conhece como liberalismo em política se constitui em torno dessa ideia.

Como sugeri no texto anterior, transformações históricas puseram profundamente em questão essas visões, a despeito de elas continuarem a predominar, ao custo de cada vez mais contraditórias “concessões” conceituais e pragmáticas dessa concepção topográfica da política. Para começar, o discurso religioso sempre teve dificuldades de conceder esse lugar distinto e protegido à política, particularmente no Ocidente cristão não-liberal. Assim, é antes a fusão entre o domínio da religião e o da política que caracteriza a posição conservadora clássica (suspendo por enquanto a questão sobre o que significam tais conceitos “antes” de sua “fusão”). A luta para delimitar um lugar para a política que coincidisse com a retração da religião à esfera privada ou mesmo puramente subjetiva da vida levou séculos e não foi obra do conservadorismo religioso. Foi a luta que consagrou a concepção liberal da separação entre igreja e estado como separação entre privado e público e reservou o religioso à esfera das convicções e valores, da moralidade individual.

O argumento anti-político que conhecemos hoje é já uma resposta meio resignada à vitória do liberalismo. E havia religião dos dois lados. À sombra das guerras de religião do século 16, da resistência católica à modernidade nos séculos seguintes e da experiência quase-religiosa do totalitarismo no século 20, o liberalismo (de inspiração solidamente protestante) prevaleceu como campeão das liberdades religiosa, de pensamento e de expressão, e muitos cristãos contribuíram decisivamente para tanto. E, em reação visceral ao avanço do liberalismo político e do socialismo (ainda mais rigoroso em sua ideia de separação entre religião e política), um discurso radicalmente quietista espalhou-se pelo mundo, a partir de setores evangélicos brancos norte-americanos, que convergirá com o anti-comunismo militante dos anos de 1950 em diante, ativamente participante na Guerra Fria. Esse discurso, que aliou contraditoriamente a recusa à participação política ao apoio explícito a políticas anti-comunistas (incluindo violações da soberania nacional e dos direitos humanos em várias partes do mundo), tornou-se dominante entre os protestantes brasileiros a partir do golpe militar de 1964. Também o foi entre muitos católicos.

No entanto, este é um processo com muitas entradas. De um lado, em resposta à ortodoxia secularista, ao apoliticismo e ao reacionarismo religioso, respostas religiosas foram sendo dadas que recolocaram no centro da reflexão e da prática o desafio de articular religião e política de outra maneira. De outro lado, o avanço da lógica estatal sobre cada vez mais áreas da vida social e privada, em linha com as políticas de bem-estar e as reivindicações dos movimentos sociais dos anos de 1960 em diante (direitos civis, feminismo, ecologismo, anti-racismo e defesa dos direitos culturais e suas múltiplas combinações), politizou temas e práticas antes consideradas não-políticas.

Assim, nas últimas décadas, em escala internacional, ampliou-se consideravelmente o rol das temáticas e práticas consideradas políticas. O inconformismo com os limites da democracia representativa (parlamentarista ou presidencialista) como único lugar de deliberação pública e tomada de decisões; as lutas contra os autoritarismos do século 20; a busca por formas de expressão coletiva de crítica social; e a crescente percepção intelectual das múltiplas formas de cumplicidade entre poder e saber – esses processos conduziram à expansão dos “territórios” da participação, à ampliação da agenda de questões de relevância pública, à emergência da “sociedade civil” como ator crucial na definição do que é de interesse público, de que vozes contam como representativas dos diferentes grupos e posições existentes.

A definição de democracia se amplia para além dos limites do estado – sem perder contato com ele – e cria-se uma zona cada vez mais cinzenta na fronteira do que antes separava o domínio do político do que seria não-político. Ser político é um atributo que torna-se contingente, volátil, contestado. O que hoje é não-político pode amanhã ser “politizado”; o que é político numa determinada esfera da vida social, pode ser não-político em outra(s). A separação entre “igreja” e “estado” torna-se mais complexa quando a forma-igreja não se confunde mais nem com a Igreja Católica, nem com as igrejas cristãs, à medida que o pluralismo religioso se instala, pela migração de pessoas de outras culturas, ou pelo trânsito religioso (conversão a outras religiões). O ativismo religioso na política já não tem que ameaçar o caráter laico da esfera pública (seja no âmbito da sociedade civil ou do estado). Reivindica o reconhecimento das vozes da religião como representativas de certas identidades sociais e de práticas socialmente relevantes, ao invés de exigir que todos se ajustem a formas de crença e comportamento de alguma corrente religiosa politicamente vitoriosa.

Não se trata mais, portanto, de retornar a uma concepção “integral” da relação entre religião e política. Admitir a distinção entre as duas não significa aceitar sua incomunicabilidade, sua radical separação. Mais ainda, num mundo de intrincadas e mutantes relações entre crenças, valores, interesses e práticas de inúmeros grupos, as fronteiras que separam religião e política tornam-se incertas, provisórias, sujeitas a constante contestação ou negociação. A questão não é nem mesmo qual a política dos evangélicos. É antes a de continuamente redefinir o que está em questão que mereça ser levado ao debate público, confrontado a outras visões e interesses, e com quem tal questão será discutida e negociada. O estado não é mais o único lugar onde isso se dá. Nem os políticos são mais as únicas pessoas encarregadas desses assuntos.

27/12/2009 22:18:13 Comentários (0)

Política: por onde andam nossas idéias?

Há afirmações que se tornaram lugar comum e, assim, perderam sua capacidade de comunicar algo mais profundo. Uma delas é a de que “o homem é um ser/animal político”. Sem falar na já questionável marca sexista da afirmação – o que fazia sentido nos tempos em que somente homens eram considerados cidadãos (ou seja, pessoas com direito a participar das decisões públicas da comunidade), a afirmação poderia ser falsificada de muitas maneiras. Por exemplo, pela observação de que a grande maioria das pessoas não se interessa por assuntos políticos a não ser em momentos ritualizados como as eleições – e nem isso, onde estas não são obrigatórias.

Ou pela observação de que muita gente passa a maior parte de sua vida preocupada com assuntos aparentemente não-políticos, como a luta pela sobrevivência, ou a busca da felicidade pessoal no amor, no trabalho, no cuidado de outros. Ou ainda pelas muitas expressões de manipulação, violência, busca do interesse próprio em detrimento do interesse coletivo, apropriação privada de recursos e oportunidades que deveriam estar ao dispor de todas as pessoas numa dada formação social, que alimentam o imaginário popular sobre a política como lugar de sujeira, indignidade e corrupção. Tudo isso junto parece sugerir uma de duas coisas, pelo menos: a) que a afirmação é falsa pois nem todos os humanos são políticos; b) que a afirmação é falsa pois a política na verdade tende a nos desviar do caminho da ética e do compromisso com o bem-estar do outro.

À vista dessas situações tão corriqueiras, que fazem os ativistas e militantes angustiarem-se, desesperarem-se ou, eventualmente, assumirem uma postura “vicária” em relação aos “despolitizados” (de substituí-los sem ouví-los, ou de tratá-los com cinismo e menosprezo), é preciso mais do que declarações generalizantes sobre o ser humano e a política para nos ajudar a compreender o lugar desta última na produção e transformação da sociedade. É preciso atualizarmos nosso pensamento sobre a política e isto tem direta relação com duas outras coisas: a experiência histórica acumulada e objeto de persistente e meticuloso estudo desde pelo menos os tempos de Maquiavel, na Itália renascentista; e as mudanças introduzidas pela prática de movimentos sociais e políticos, especialmente desde fins dos anos de 1960. Esses dois parâmetros nos permitem lançar um conjunto de interrogações sobre o sentido e o lugar da política em nosso tempo e balizar nossa reflexão ética e teológica sobre nosso papel enquanto cristãos e cristãs.

Se tomarmos como ponto de referência o último século, a experiência histórica e as transformações da prática permitiram uma multiplicação de perspectivas sobre a política que acenam para todos os lados: desde as formulações mais preocupadas em mudar às mais preocupadas em manter o estado de coisas vigente. Três coisas, para início de conversa, vieram à tona com muita força, porém: a) “enxergamos” a política em muito mais lugares, linguagens e formas de ação do que antes; b) admitimos – ou nos resignamos – ao caráter conflitivo dos assuntos políticos; c) assistimos a uma pluralização tanto dos atores políticos legítimos quanto das formas de avaliar e agir politicamente.

Combinadas, essas três circunstâncias alteram profundamente o que entendemos por política, por quem a faz ou pode fazer e pelo que se pode alcançar por meio dela. Mais, testemunham da “invasão” da política (assim vista) em muitas esferas aparentemente refratárias à mesma – o que inclui a fé cristã e suas manifestações institucionalizadas ou individualizadas (em outras palavras, tanto as igrejas e organizações cristãs quanto as diversas formas de espiritualidade pessoal).

O que o leitor e a leitora encontrarão a partir desta edição da nossa coluna em Novos Diálogos será uma insistente busca de encontrar novas formas de articular cristianismo e política. Para tanto, estaremos revisitando alguns temas conhecidos, avaliando situações concretas e projetando mudanças ainda em curso ou apenas indicativas. Nossa preocupação será formativa, mais do que informativa – se é que tal distinção merece ser mantida –, o que quer dizer que não se tratará de uma coluna de “análise de conjuntura”, de “fofoca política”. Por isso, nossa linguagem procurará ser de fácil compreensão, embora nem sempre isso vá significar textos de imediata apreensão.

Há assuntos que são reconhecidamente complexos ou referentes a situações que ainda estão em processo e, portanto, não permitem apreciações diretas e livres de ambiguidades e incertezas. Ao leitor e à leitura ávidos por tomar posição rapidamente, por decidir entre opções claras e nítidas, por formar juízos definitivos sobre questões sociais e políticas, por derivar pautas de ação imperativas a partir de avaliações apressadas, uma advertência: não estaremos em sua companhia. Talvez frustrem-se ou insurjam-se contra a forma de raciocinar que estaremos utilizando aqui. Ficam advertidos(as).

Por fim, esta não será uma coluna neutra. Refletirá junto com e sobre posições que grosso modo poderíamos chamar de “radicais” (já que o termo “esquerda” parece criar mais problemas do que resolve, hoje em dia) no movimento cristão de nosso tempo. Será supra-partidária e ecumênica, desde uma dupla circunstância: a do evangelicalismo (radical) e a do campo historicamente marcado pelos adjetivos “liberal” e “socialista” no jargão político. Sobre tudo isso, falaremos no devido tempo. Mas insistimos em que a abertura que precisamos mostrar em nossas reflexões não pode abrir mão de tomar posição. E ao tomarmos posição, sempre o fazemos a partir de um determinado lugar (ou da conjunção de vários). Ficam indicados alguns de onde parto. Algum(a) companheiro(a) de viagem?

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