René Padilla

13/8/2010 12:24:04 Comentários (0)

A compaixão supre o que falta à teologia

A compaixão supre o que falta à teologia

O que faz possível uma missão de amor genuíno, ao estilo de Cristo, é a compaixão. Quando não há compaixão, podemos ter dinheiro para realizar programas de ação social e (talvez) uma ideologia para nos motivar e nos dar sonhos de um novo mundo, mas nossa missão não é, então, ao estilo de Jesus.

Sempre houve cristãos que têm uma teologia bem “progressista” mas que não vivem de acordo com ela. Sua teologia é bem idealista, mas sua vida prática não reflete o que ela diz. Entretanto, também se passa o contrário: há cristãos cuja teologia deixa muito a desejar, mas cuja vida prática nos surpreende — são vidas motivadas pela compaixão, vidas de serviço em resposta às necessidades do próximo, de preocupação pelas crianças, de identificação com os pobres, de vontade de fazer todo o possível para mudar a situação das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Pode-se dizer que a compaixão supre o que lhes falta na teologia.

Um tema constante na maioria das grandes conferências organizadas por gente evangélica, nas três últimas décadas, é a responsabilidade dos cristãos frente às necessidades sociais, políticas e econômicas de nossos povos. O que estamos vendo hoje em dia é, em grande medida, o resultado não apenas desses congressos ou reuniões mas de todo um trabalho teológico e pedagógico, conjugado com o sério agravamento da realidade, que exige que muitos tomem consciência de que não é possível seguir pregando um evangelho desencarnado da realidade.

Até bem recentemente, muita da evangelização das igrejas evangélicas era desencarnada. Orientava-se à salvação da alma mas se omitiam as necessidades do corpo. Oferecia-se a reconciliação por meio de Jesus Cristo mas se deixava de lado a reconciliação do homem com seu próximo, baseado no mesmo sacrifício de Jesus Cristo. Proclamava-se a justificação pela fé, mas se omitia toda a referência à justiça social enraizada no amor de Deus pelos pobres.

Esta ênfase estava frequentemente vinculada a outra, muito forte: o crescimento numérico da Igreja. Por conta de aumentar o número de membros nas fileiras evangélicas, caía-se na redução do Evangelho fazendo desta uma mensagem para o indivíduo e não para a sociedade, para a vida privada mas não para a pública. Muitas igrejas não superaram ainda estas distorções, e as controvérsias lhes impedem de participar criativamente no que Deus quer fazer no mundo para cumprir seu propósito redentor. Entretanto, abundam hoje ministérios integrais que mostram uma mudança radical que está ocorrendo no povo evangélico latino-americano no que se refere à maneira de encarar seu ministério. São sinais que apontam para um novo dia na história da Igreja evangélica na América Latina. E o que faz possível esses sinais não é outra coisa senão a compaixão.

3/8/2010 01:30:05 Comentários (0)

Perguntas sobre liderança

Perguntas sobre liderança

Num artigo publicado no Boletim Teológico, Valdir Steuernagel estabelece o contraste entre a abordagem da educação teológica na década de 1970 e a abordagem no momento atual. Antes, diz, o método era formal, lógico e discursivo. Hoje, “até parece que esta geração despreza o recurso da abstração em si mesma e busca uma afirmação teológica vivencial, experimental, excitante e até mística”. O autor escreve a partir do ponto de vista de uma pessoa dedicada à docência numa instituição de educação teológica e o que diz aponta para os efeitos do “espírito de época” nos centros de preparação para o ministério pastoral. O fato, entretanto, é que neste momento uma alta porcentagem de pastores e líderes de igrejas são pessoas que consideram que a preparação que precisam não é de modo algum a que lhes oferecem os seminários e institutos bíblicos.

Para que serve a educação teológica se o que as igrejas pós-modernas demandam e buscam são líderes “carismáticos”, dinâmicos e “pregadores eletrônicos”, especialistas no uso dos mass media e no marketing religioso? Se o que interessa é atrair as massas para que a igreja cresça numericamente, são necessários dirigentes dispostos a deixar de lado os papéis do pastor tradicional e a ensaiar novas formas de se relacionar com o público e adotar a postura de executivos empresariais exitosos.

Há que reconhecer que os novos tempos exigem para a Igreja um novo tipo de líder, menos “cerebral” e mais afetivo; menos discursivo e mais consciente dos alcances das “metamensagens”. Ao mesmo tempo, cabem algumas perguntas à luz do ensino bíblico. Em primeiro lugar, que vigência tem para a liderança cristã no mundo atual o modelo de líder-servo exemplificado em Jesus Cristo? É possível renunciar irrevogavelmente ao dinheiro e ao poder derivados do êxito numérico da Igreja-empresa, numa sociedade obcecada pelo poder e o dinheiro?

Por outro lado, como se pode desenvolver uma liderança que considera as exigências éticas do Evangelho e a dimensão profética da fé, mas que ao mesmo tempo proveja a contenção afetiva tão desejada pelas pessoas neste tempo histórico?

Por último, como se pode capacitar líderes que não evitem o compromisso até o ponto do sacrifício e estejam dispostos a “levar a cruz” a cada dia, no meio de uma geração que busca conforto e o menor esforço em tudo?

23/7/2010 12:49:47 Comentários (0)

Sem evangelização não há missão integral

Sem evangelização não há missão integral

O Evangelho é o que de mais precioso podemos oferecer porque é o melhor que temos. Toda a ajuda que podemos oferecer aos necessitados é boa, mas nada é comparável à possibilidade de se apropriar dos recursos que Deus quer lhes dar para uma vida digna, cheia de sentido — uma vida em abundância.

Evangelizar é anunciar as boas notícias de Jesus Cristo em palavras e em ação, àqueles que não o conhecem, com a intenção de que, pela obra do Espírito, se convertam a Jesus Cristo, se disponham a lhe seguir como discípulos, unam-se à sua igreja e colaborem com Deus na realização de seu propósito de restaurar a relação com ele, com o próximo e com a criação. Assim, a conversão é o começo de uma transformação que abarca todo aspecto da vida.

Portanto, a evangelização requer a participação de agentes humanos dispostos a colaborar com o Espírito Santo. Bryant Myers nos chama a atenção para um padrão, um modelo de evangelização no livro de Atos, que mostra que o anúncio do evangelho é, com frequência, “o segundo ato da narração” — a resposta a perguntas suscitadas por algo que acontece. Por exemplo, o Sermão de Pentecostes, o Sermão na porta do Templo de Jerusalém seguido da cura de um deficiente físico e o Sermão de Estevão, resposta à acusação provocada pelos milagres. Nas palavras de Myers, “em cada caso se proclama o evangelho, não por intenção ou plano prévio, mas em resposta a uma pergunta provocada pela atividade de Deus na comunidade”. Há uma ação que exige explicação e o evangelho é a explicação.

Devemos nos preguntar, então: Até que ponto nossas ações provocam perguntas?

Para concluir, é compreensível a reação contra o que poderíamos chamar de um “sectarismo cristão” — o afã de converter as pessoas, sem respeitar os tempos do outro. Reafirmamos que não há lugar para o proselitismo nem a manipulação. Entretanto, sem evangelização não há missão integral.

12/7/2010 13:33:28 Comentários (0)

Educar para a solidariedade

Educar para a solidariedade

Nossa realidade latino-americana está marcada por duas forças contraditórias:

A primeira é a mentalidade pós-moderna, que põe ênfase na interdependência entre todos os seres humanos e entre estes e a natureza. Em sua análise da pós-modernidade, David J. Bosch sustenta que o credo do Iluminismo, de que cada indivíduo tem liberdade para buscar sua própria felicidade sem se preocupar com os demais, está deixando de ser vigente. Segundo ele, esta “mudança de paradigma” exige que os cristãos reconheçamos nossa solidariedade com a natureza assim como com todas as pessoas.

A segunda força tem a ver com a realidade sócio-econômica e política que expõe as grandes maiorias incapazes de satisfazer suas necessidades básicas; aumenta o índice de desemprego e de desnutrição e enfermidades; faz crescer a violência, a insegurança, o analfabetismo e o abandono escolar; acentua os conflitos pessoais e interpessoais e desintegra as famílias; amplia o abismo entre ricos e pobres; e, como resultado, aprofunda a crise social, aumenta a depredação da natureza e subestima as consequências da atual destruição do sistema ecológico para as novas gerações.

Na raiz das crises social e ecológica está a falta de solidariedade com o próximo. O sistema econômico vigente fomenta o individualismo e faz da privatização dos bens um valor absoluto. As classes privilegiadas, incluindo a dos políticos, monopolizam os benefícios do trabalho de todos e adotam um estilo de vida ostentoso baseado na exploração e na injustiça, na corrupção e na desigualdade.

Resumindo, há um notável paradoxo entre a busca de interdependência própria da era pós-moderna, por um lado; e a exacerbação do individualismo, característica da sociedade de consumo, por outro lado. O ideal de relações solidárias se despedaça ao colidir contra a rocha da insensibilidade e da exclusão.

Neste contexto, a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo demanda que a educação se estruture em termos de solidariedade com o outro, seja quem for, em sua necessidade. Em primeiro lugar está a solidariedade com as vítimas do sistema de opressão em sua necessidade de justiça. Não basta lhes anunciar a “salvação da alma” sem prestar atenção alguma ao sofrimento que lhes causam suas necessidades corporais insatisfeitas.

Em segundo lugar está a solidariedade com os agentes da opressão em sua necessidade de perdão. Aqui tão pouco basta lhes anunciar a “salvação da alma”, desta vez sem prestar qualquer atenção à separação que lhes causam as riquezas na sua relação com o próximo. O algoz necessita ser libertado do deus Mamom mediante o arrependimento que conduz ao perdão de Deus e à solidariedade com os necessitados. Reconhecerá sua necessidade de libertação, perdão e solidariedade na medida em que experimente o amor de Deus por meio dos que estejam dispostos a se solidarizarem com ele em sua necessidade espiritual. Se o amor ao dinheiro é a raiz de todo tipo de mal, é de suma importância que os detentores do poder, dentro e fora do país ou continente, reconheçam que a vida de uma pessoa (ou de uma nação) não depende da abundância de seus bens (Lucas 12.15) e se disponham a desenvolver uma economia que esteja a serviço, não do mercado, mas do ser humano.

A solução para as crises de nossos países passa pela substituição do afã pelo lucro e dos valores monetários por valores humanos, que requer uma ênfase na educação para a solidariedade com o próximo como um princípio fundamental para a convivência humana.

(Tradução de Flávio Conrado)

5/7/2010 15:56:36 Comentários (0)

De Edimburgo 1910 a Lima 1972: Mudanças de paradigma no desenvolvimento da missão – 2ª Parte

De Edimburgo 1910 a Lima 1972: Mudanças de paradigma no desenvolvimento da missão – 2ª Parte

Em contraste com esta posição missiológica, a missão do Reino propõe que a evangelização deve ir acompanhada pela reforma social, de modo que a vontade de Deus se cumpra para além da igreja — assim na terra como no céu. A missão do Reino afirma que ele não pertence ao futuro, nem é ultramundano, mas uma realidade presente introduzida na história por Jesus Cristo e uma realidade que se manifestará em toda a sua plenitude no futuro.

A pesar de suas fraquezas, o conceito de missão que caracteriza o movimento missionário tradicional inspirou, e em muitos casos ainda continua inspirando, a milhares de missionários transculturais a cruzar fronteiras geográficas com o propósito de difundir as boas novas de Jesus Cristo. Assim se escreveu algumas das páginas mais comoventes da história da igreja e se formou um movimento cristão de alcance global, com congregações em praticamente todos os países do mundo. Por outro lado, é necessário reconhecer que a identificação da missão da igreja com a missão transcultural — uma identificação exemplificada claramente pela Conferência Missionária Mundial de Edimburgo em 1910 — resultou na ratificação de uma posição a respeito da missão cristã que a reduziu à tarefa de salvar almas e plantar igrejas, uma tarefa realizada por missionários enviados pelos países cristãos aos campos missionários do mundo, cumprindo de maneira representativa a responsabilidade de toda a igreja.

A origem do conceito e da prática da missão integral, que hoje ocupa o centro do cenário em círculos da Rede Miquéias e de um crescente número de igrejas e entidades evangélicas ao redor do mundo, remonta a um movimento global de reflexão teológica evangélica no qual, debaixo da direção de Deus, se redescobriu o Reino de Deus. Pelo menos no caso da América Latina, é fácil demonstrar que este conceito se constituiu na chave para a compreensão das bases bíblicas da missão cristã: tendo sido inaugurada em dezembro de 1970, a Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL) dedicou sua segunda consulta, realizada em Lima em dezembro de 1972, ao tema “O Reino de Deus e a América Latina”. A partir dessa consulta, muita da rica produção teológica da FTL exerceria uma influência marcante na articulação da missão do Reino em termos de missão integral não só na América Latina mas ao redor do mundo, especialmente no Mundo dos Dois Terços.

A nota do Reino de Deus como a nota chave para a compreensão da missão cristã e do lugar da igreja na grande sinfonia do propósito universal de Deus ressoou no Primeiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial que se realizou em Lausanne, Suíça, em 1974. Escutou-se especialmente em algumas das conferências de oradores vinculados à Fraternidade Teológica Latino-Americana e na de Howard Snyder, orador com experiência missionária no Brasil. E ressoou com muita força no documento intitulado Uma Resposta à Lausanne, produzido por um grupo ad hoc e assinado por cerca de 400 dos participantes no congresso, incluindo John Stott. Neste documento se define o Evangelho como “boas novas de libertação, de restauração, de saúde e de salvação pessoal, social, global e cósmica”.

Para o movimento evangélico a nível global, os anos que se seguiram a Lausanne 1974 foram caracterizados pela polarização entre duas posições a respeito da missão cristã. Um pólo é o da abordagem tradicional, prevalecente especialmente no Ocidente, com sua ênfase na salvação de almas e na plantação de igrejas por meio da evangelização entendida como “o testemunho verbal da Igreja”. Mantém relação com o conceito de Reino de Deus como uma realidade espiritual experimentada subjetivamente pelos crentes em Jesus Cristo. Nas palavras de Arthur P. Johnston, “O Reino de Deus é o reinado que Deus exerce no presente nas disposições morais da alma com o consentimento do coração. Deus reina como Rei na vida dos ‘nascidos de novo’”.

O outro pólo é a abordagem que enfoca a missão integral como a expressão do Reino de Deus que já ingressou na história por meio de Jesus Cristo, embora ainda não em sua plenitude. É a abordagem que irrompeu especialmente na Fraternidade Teológica Latino-Americana na década de 1970 e em Uma Resposta a Lausanne em 1974. E não podemos passar por cima do documento que nessa mesma linha surgiu da Conferência sobre a Igreja em Resposta às Necessidades Humanas que, com o auspício da Aliança Evangélica Mundial e com um forte contingente de participantes do Mundo dos Dois Terços, se realizou em Wheaton, Illinois, em 1983. Tomando como ponto de partida a visão bíblica do Reino de Deus, esse documento afirma em termos inequívocos que “o mal não se encontra apenas no coração humano mas também nas estruturas sociais”; que “a missão da Igreja inclui tanto a proclamação do evangelho como sua demonstração”, e que, consequentemente, “devemos então evangelizar, responder às necessidades humanas imediatas e pressionar pela transformação social”.

Este segundo pólo, fortemente influenciado por evangélicos que na vida diária encaram as consequências negativas do sistema econômico global de injustiça (global e local) e foram forçados assim a tomar consciência das necessidades humanas básicas, é o pólo que tomou forma institucional na Rede Miquéias. É o pólo que busca ser fiel à demanda de Deus de “fazer justiça, amar a misericórdia e viver humildemente diante de Deus”(Mq 5:8) por meio da prática da missão integral, que é a missão do Reino.

28/6/2010 23:33:53 Comentários (0)

De Edimburgo 1910 a Lima 1972: Mudanças de paradigma no desenvolvimento da missão – 1ª Parte

Se a verdade do cristianismo dependesse da fidelidade com a qual os cristãos o configuraram na história, não se poderia dizer muito a seu favor. Ainda que a história da igreja abunde em páginas que ilustram a dinâmica do Evangelho para a transformação pessoal e social, também abunda em páginas que mostram a facilidade com que os cristãos transformaram o Evangelho do Reino de Deus — as boas novas do reinado de Deus de justiça e shalom inaugurado por Jesus Cristo — numa religião posta ao serviço dos reinos deste mundo dominados por interesses estranhos ao propósito de Deus.

Um dos exemplos mais claros da utilização do cristianismo para propósitos indignos se deu no vínculo entre o imperialismo ocidental e o trabalho missionário tanto católico-romano como protestante nos últimos séculos até nossos dias. Ninguém ignora que o plano de conquistar e colonizar a América no século 16 assumia que a extensão do império governado pelo rei Fernando e a rainha Isabel era equivalente à extensão do Reino de Deus. E em nome desse ideal supostamente cristão, respaldado pelo Papa, se cometeu toda sorte de atrocidades e arbitrariedades contra as nações vencidas.

É necessário reconhecer, entretanto, que o drama da evangelização vinculada ao imperialismo também tem uma versão protestante. Na realidade, salvas as diferenças de atores e circunstâncias, a expansão dos Estados Unidos no século 19 repetiu a prepotência da conquista espanhola do século 16 e, como esta, buscou justificativa num suposto “destino manifesto” de origem sobrenatural, que supostamente acompanhava o conquistador. Obscurecidos pela ideia do destino manifesto, a grande maioria dos líderes eclesiásticos protestantes estadunidenses respaldaram as guerras expansionistas do seu país como um instrumento necessário para o estabelecimento de um “império de justiça” favorável à evangelização a nível global. O conceito de destino manifesto, entretanto, não foi exclusivo dos Estados Unidos, mas se constituiu num dos pilares da expansão colonial de vários dos países europeus especialmente por volta do fim do século 19 e durante as primeiras décadas do século 20. Especialmente durante a era imperial, depois de 1880, a aliança entre missão e colonização era aceita sem maiores questionamentos, e se assumia que a obra missionária era a obra do país colonialista — obra estadunidense, britânica, francesa, belga ou o que fosse, segundo o país de procedência dos missionários.

A Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, cujo centenário se celebra este ano, aconteceu em junho de 1910, em plena época do florescimento do destino manifesto e do clímax da ideia do progresso, próprio da modernidade, no mundo ocidental. Já em 1900 havia sido realizada a Conferência Missionária Ecumênica no Carnegie Hall de Nova Iorque, organizada para pastores e líderes eclesiásticos e tinha como foco a mobilização da igreja. A Conferência de Edimburgo, de sua parte, queria ser uma conferência de estratégia missionária — uma maneira de projetar a partir dos Estados Unidos a visão e o compromisso missionários a outros países cristãos, especialmente a Grã-Bretanha, Alemanha, França e Bélgica. O objetivo era “a evangelização do mundo nesta geração”, como rezava o lema que o Student Volunteer Movement (Movimento de Estudantes Voluntários) adotou em 1889. Segundo a perspectiva de John Mott, um dos principais inspiradores e promotores da Conferência de Edimburgo e seu moderador, esse objetivo era alcançável porque a igreja contava não só com a dedicação de milhares de voluntários dispostos a somarem-se à tarefa de evangelização como recursos providenciados por Deus, incluindo os avanços da ciência moderna, o poder financeiro e o apoio de governos cristãos. Nas palavras de Bosch, desse ponto de vista “a missão ocidental era um poder indiscutível. A missão cristã se amparava no signo da conquista do mundo”.

O ano 1910 é memorável na história do Protestantismo não só pela Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, mas também porque nesse ano se iniciou a publicação de The Fundamentals (Os Fundamentos), uma obra de doze tomos que, em chave dispensacionalista, tinha como propósito dar “testemunho da verdade” (como rezava o subtítulo) em contraposição a posições consideradas “modernistas” ou “liberais”. Entre 1910 e 1915, essa obra se difundiu amplamente e serviu como lenha que alimentou o fogo da controvérsia fundamentalismo/modernismo — uma controvérsia que ocupou os destaques das notícias religiosas ao largo da década de 1920 nos Estados Unidos, refletindo em muitos outros países.

No fundo, a polarização entre fundamentalistas e modernistas tem a ver com diferenças na interpretação do Reino de Deus e, consequentemente, na maneira de entender a missão cristã. Para usar a terminologia de Ralph Winter, é uma polarização entre os que entendem a missão como missão da igreja e os que a entendem como missão do Reino.

Para os fundamentalistas, a tarefa missionária consiste na proclamação do Evangelho orientada à expansão da igreja, com o consequente incremento no número de membros. Fortemente influenciados pelo dispensacionalismo e a escatologia pré-milenarista, mantêm que o Reino de Deus será estabelecido com a segunda vinda de Cristo, e que o tempo presente tem como objetivo missionário a pregação do Evangelho a todas as nações. Concebe-se a missão principalmente em termos geográficos: consiste no cruzamento de fronteiras do Ocidente cristão para os “campos missionários” do mundo não cristão ou pagão com o propósito de salvar almas e plantar igrejas. Falar de missão é falar de evangelização transcultural. Os agentes da missão são exclusivamente os “missionários” europeus ou norte-americanos, com um ou outro australiano ou sul-africano, a maioria deles afiliados a sociedades missionárias denominacionais ou interdenominacionais (as “missões de fé”). As qualificações para ser missionário variam mas se assume que, a parte da experiência de conversão a Jesus Cristo, o primeiro requisito é sentir-se “chamado ao campo missionário”. Considera-se que a resposta positiva ao chamado de Deus para ser missionário, como no caso do chamado para ser pastor, é o chamado supremo, a vocação mais alta que um cristão pode receber no serviço a Deus.

Obviamente que não é para todos os cristãos mas apenas para um grupo seleto. E se rechaça “o Evangelho social” como uma posição teológica modernista, inaceitável porque não leva em consideração que a única solução para os problemas sociais se encontra na difusão da mensagem de salvação por meio de Jesus Cristo. Essa era a visão da maioria dos missionários transculturais que plantaram as primeiras igrejas evangélicas em muitos países, inclusive os latino-americanos. Não surpreende que ainda hoje a ênfase unilateral na pregação do Evangelho seja uma das características mais distintivas do movimento evangélico ao redor do mundo.

(Tradução de Flávio Conrado) 

24/4/2010 04:51:10 Comentários (0)

Chegou o momento anunciado pelos profetas

Chegou o momento anunciado pelos profetas

As pesquisas mais recentes no campo da escatologia do Novo Testamento mostram que a mais antiga tradição do ensinamento de Jesus combina, por um lado, a afirmação da vinda do Reino como uma realidade presente e, por outro lado, a expectativa do cumprimento do propósito redentor de Deus. No entanto, a premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não são a esperança da vinda do Reino em uma data que se pode prever, mas o fato de que em sua própria pessoa a obra do Reino já se fez presente com grande poder.

Jesus afirma que ninguém sabe o dia nem a hora em que os eventos escatológicos chegarão à sua conclusão. Porém, afirma que o último ato (“os últimos dias”) destes eventos começou nele. O Reino tem a ver com o poder dinâmico de Deus por meio do qual “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciado o evangelho”.

Chegou a hora anunciada pelos profetas: o Ungido veio para dar boas novas aos pobres, sanar os quebrantados de coração, pregar liberdade aos cativos e pregar o ano agradável do Senhor. Em outras palavras, a missão histórica de Jesus somente pode ser entendida em conexão com o Reino de Deus. Sua missão aqui e agora é a manifestação do Reino como uma realidade presente em sua própria pessoa e a ação em sua pregação do evangelho e em suas obras de justiça e misericórdia.

Em consonância com isto, o reino é o poder dinâmico de Deus que se faz visível por meio de sinais concretos mostrando que Jesus é o Messias. É uma nova realidade que entrou na história e que afeta a vida humana, não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. O reino antecipou-se à consumação escatológica do final dos tempos, sendo inaugurado na pessoa de Cristo.

Portanto, falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação histórica que tem a igreja com relação a esse propósito aqui e agora, “entre os tempos”. É também falar de uma realidade escatológica que constitui, ao mesmo tempo, o ponto de partida e a meta da igreja. Consequentemente, a missão da igreja só pode ser entendida à luz do Reino de Deus.

A consumação do propósito de Deus se realizará no futuro, porém, aqui e agora, é possível vislumbrar a realidade presente em seu Reino.

Ilustração: Ceia Ecológica do Reino, de Maximino Cerezo Barredo

(Tradução de Wagner Guimarães) 

4/4/2010 18:59:44 Comentários (1)

Rumo a um novo tipo de ecumenismo

O trabalho ecumênico na América Latina não é fácil, mas, se cremos que realmente somos um em Cristo e que somos chamados para uma missão integral, há que se buscar espaços para fazê-lo. As igrejas e missões evangélicas são um espaço onde podemos trabalhar lado a lado com outros cristãos comprometidos socialmente, porém, a partir do Evangelho. Caso contrário, não achemos que estamos fazendo uma obra cristã. Creio no valor das obras humanas, mas, se queremos ser cristãos, partamos do Evangelho, partamos da nossa unidade em Cristo, apesar de nossas diferenças em questões de escatologia ou sobre qual a melhor estratégia para se chegar ao poder ou sobre as conquistas do trabalho na política etc. Nosso compromisso com Cristo nos leva a um testemunho cristão, a ser “sal” e “luz” em meio a uma sociedade em decadência, uma sociedade que mostra suas cicatrizes por meio de crianças abandonadas, prostituição infantil, injustiça institucionalizada, empobrecimento das massas, corrupção em todos os níveis. Portanto, vamos nos unir em Cristo Jesus para dar testemunho de que fomos criados nele para viver o Evangelho em todas as suas dimensões, em resposta aos problemas que nos rodeiam!

As mudanças que aconteceram no panorama eclesial nos últimos anos exigem que nós, que cremos na necessidade de um testemunho cristão unificado, revisemos nossa agenda ecumênica. É urgente que pratiquemos o ecumenismo com irmãos e irmãs que talvez possam ter muitas limitações teológicas mas estão vivendo e servindo em nome de Cristo no meio dos pobres.

Muitas vezes, nosso ecumenismo se reduz ao grupo de pessoas que está de acordo com nossas ideias políticas, que compartilha a mesma ideologia de transformação social e sonha com uma sociedade socialista. Se nosso ecumenismo se reduz a isso, estamos equivocados: não somos realmente ecumênicos, mas "ecumenistas"! Digo isso com dor na alma: muitas vezes os fundos que vem de organizações ecumênicas da Europa e dos Estados Unidos servem para apoiar programas que privilegiam aqueles que compartilham nossa ideologia mas não nossa fé em Jesus Cristo. Podemos discutir esta questão, mas minha proposta é a seguinte: façamos um novo tipo de ecumenismo verdadeiramente ecumênico (aqui, vale a redundância).

Honestamente, creio que, neste momento, faltam organizações ecumênicas mas não "ecumenistas". Em outras palavras, precisamos de organizações nas quais se viva um ecumenismo a partir do Evangelho. Organizações "pró-eclesiásticas" (que são melhores que as "paraeclesiásticas") nas quais irmãos católicos progressistas que se sentiram pressionados por uma estrutura autoritária que já não lhes dá espaço e irmãos evangélicos que têm problemas por haver levantado a voz contra posturas de algum "papa" defensor do status quo se sintam à vontade e formem uma frente comum como cristãos, a partir do Evangelho e no serviço dos pobres, pela causa do Reino e sua justiça. Essa é minha proposta pela unidade, o Reino de Deus e sua Justiça.

(Tradução de Wagner Guimarães)

17/3/2010 02:01:40 Comentários (0)

Vigência do Jubileu no mundo atual

No capítulo 25 do livro de Levítico, o início do Jubileu é determinado para o dia 10 do sétimo mês (Tishri), que é “o dia da expiação” ou da “Festa do Perdão” (v. 9), o dia mais solene do calendário israelita. Assim, é sugerida uma estreita relação entre o pecado e a desigualdade, e entre a libertação do pecado e a libertação da escravidão econômica. No povo de Deus, não é possível experimentar o perdão de Deus, que é libertação da culpa do pecado, sem, ao mesmo tempo, sentir-se responsável pela libertação dos que sofrem com a opressão socioeconômica. A renovação da vida espiritual está ligada à renovação da própria criação porque o ser humano é inseparável da criação.

No começo do Jubileu, por todas as partes ressoa a trombeta dos arautos que proclamam “liberdade na terra a todos os seus moradores” (v. 10). O ano do Jubileu é primordialmente este: um “ano de libertação”; pois, nele, os escravos ficam em liberdade, se cancelam as dívidas e as famílias pobres recuperam suas terras e seu senso de unidade familiar. É um ano de radical transformação das estruturas de opressão, um ano de libertação e restauração.

Na própria essência do Jubileu está a exigência divina da equidade para todos. Por um lado, se reconhece que a vida humana tem sempre uma base econômica e comunitária, e que esta base é a mesma para todos os membros da sociedade, sem distinção de classes. Por outro lado, se reconhece o caráter inalienável da terra destinada a cada família estendida e se tomam medidas para corrigir as desigualdades que tenham surgido como resultado de fatores imprevisíveis, com o objetivo de retornar à igualdade socioeconômica desejada por Deus.

O ano do Jubileu é o ano da libertação, e esta libertação não conduz ao gozo de um direito absoluto de propriedade individual, mas que se concretiza na recuperação de bens familiares que tenham sido perdidos e que constituam a base econômica e comunitária da vida humana. A libertação jubilar dá a toda pessoa a liberdade de viver como ser humano, em conformidade com o propósito de Deus. Não é um ato de generosidade dos poderosos, mas um dom de Deus, que expressa sua própria justiça instituída por sua lei.

Hoje mais do que nunca o povo de Deus necessita recuperar sua missão como arauto da “liberdade na terra a todos os seus moradores” (v. 10). A liberdade no mundo capitalista é essencialmente a liberdade do “livre mercado”, a liberdade da “mão invisível” que organiza a economia em função dos interesses dos mais favorecidos. Em contraposição a este tipo de liberdade instituída pelo sistema de morte, o Deus da vida que falou no Monte Sinai nos convoca a sermos livres e a pregarmos liberdade aos cativos porque ele é o Deus que escutou o gemido dos pobres.

Versão original em http://www.kairos.org.ar/blog/?p=3

(Tradução de Wagner Guimarães)

10/3/2010 12:15:01 Comentários (1)

O desafio da globalização capitalista

O desafio surgido com a globalização capitalista é eminentemente um desafio ético. É o desafio de criar uma sociedade mais igualitária, uma sociedade onde haja espaço para todos.

É urgente que se reduza drasticamente a distância entre ricos e pobres, entre a minoritária “classe transnacional”, constituída por aqueles que têm feito da acumulação de bens materiais o objetivo de sua vida, e a grande maioria dos excluídos ou semiexcluídos, condenados a pagar o chamado “custo social” do sistema econômico global.

Muitos diriam que para que isso ocorra é necessário um governo que coloque a justiça no centro de seu programa político, um empresariado com consciência social e um sistema econômico que neutralize os efeitos nocivos do sistema capitalista global. Não nego a ninguém o direito de sonhar, especialmente quando os sonhos apontam para mudanças orientadas na direção da utopia de um mundo novo.

Minha proposta é muito mais modesta. Minha proposta é que nos abramos para a ação do Espírito de Deus para que ele produza em nós uma revolução de valores de tal modo que nosso estilo de vida em nível pessoal e comunitário não seja um mero reflexo da cultura ideológica da sociedade de consumo. Ao contrário, que seja uma manifestação concreta do novo mundo que desejamos; um mundo de amor e justiça, paz e solidariedade.

A alternativa à globalização do mercado gerenciada pela classe capitalista transnacional é a globalização de baixo para cima impregnada destes valores éticos.

Versão original em http://www.kairos.org.ar/blog/?p=149

(Tradução de Wagner Guimarães)

Resultado(s) 1 - 10 de 11
<
Páginas:
1
2
>